Da invenção da ‘mulher de malandro’

Não me deterei em estatísticas e citações, elas estão disponíveis em sites de órgãos e institutos e na bibliografia disponível na internet e nas livrarias.

Mas …. quem nunca conheceu uma mulher agredida no âmbito familiar? Eu conheço pelo menos uma dezena. E você idem, é bem provável. Ainda que essa mulher não seja próxima, certamente você já se deparou com mulheres ou com a história de mulheres agredidas em casa. Se não conhece ou nunca ouviu uma história dessas, sugiro que você fique mais atentx e mais sensível ao que acontece ao redor, pois é da ordem das coisas que não podemos naturalizar.

E sobre naturalizar, é comum que a sociedade julgue mulheres que não conseguem denunciar ou se retirar da convivência com as pessoas agressoras. Sim, há mulheres que passam anos sendo agredidas em silêncio e não existe um “grupo de risco” para essas irmãs. Não há um padrão social que isole mulheres que estão sujeitas à violência. Até pra isso a diversidade deve ser respeitada e considerada.

Conheço (conheci) mulheres negras, brancas, jovens, mais velhas, estudadas ou não, viajadas ou não, informadas ou não (colocando informação em muitas aspas), mais recatadas ou menos tímidas, independentes ou não financeiramente (para enquadrar nessas categorias sociais),  que são (foram) vítimas de violências domésticas diversas vezes e dessas muitas vezes por maridos, irmãos, tios, primos, conhecidos. Pessoas com quem elas têm relação cotidiana, de quem elas conhecem as fraquezas, os defeitos e o endereço. E que não denunciam por M-E-D-O.

Medo de que? Denunciar uma agressão é se expor. E ainda que hoje convivamos com muita exposição, poucas pessoas são incentivadas a romperem com a cultura da violência. Mulher que não denuncia não é mulher de malandro, pois não existe mulher de malandro. Essa categoria de mulheres foi inventada pelo patriarcado para culpabilizar a vítima pelas agressões que sofre. Porque a sociedade cobra de nós, mulheres, que sejamos aquilo que ninguém que ser: a dor do mundo. Então jogam em nós todas as responsabilidades.

Se nós denunciamos, erramos em expor a família. Se não denunciamos, erramos em nos deixarem bater. Se revidamos, erramos por reagirmos à agressão. Não importa onde, as mulheres estão sempre responsabilizadas pelas mazelas sociais. Em se tratando de mulher negra, então, viramos aquela que ‘merece’ apanhar duplamente, pois a violência do machismo vem acompanhada também pelo genocídio do racismo.

Lembro do livro (de Alice Walker) e filme (de Steven Spielberg) A Cor Púrpura. Pra mim é um dos melhores exemplos dessa convivência com a violência doméstica e com o julgamento social. É também uma lição de amor, de dor, de sororidade, de afro-afetividade, reação feminina, patriarcado, racismo, genocídio. A Cor Púrpura é o tipo de livro/filme para todxs vermos a qualquer tempo da vida, sozinhxs ou acompanhadxs. Podemos reunirmos em grupos e debatermos os sentimentos manifestados nos vários trechos do filme.

Há três personagens femininas muito diferentes, cujas histórias se entrelaçam ao longo do filme: Celie, Sophia e Shug Avery. Celie é a mulher que apanha do pai e do marido por anos, sem denunciá-los, por achar que ela tem culpa em sofrer as violências que sofre, por ser ‘feia’, por não ter estudo, por ser negra. Sophia é a reação feminina e o que acontece a ela? Passa anos encarcerada em uma delegacia. Shug é a própria libertação! E com isso, julgada e banida, pelo próprio pai, por ser uma mulher que ‘não se dá o respeito’. Eu consigo chorar e rir ao longo do filme, sempre que o assisto. E lá se vão  cerca de 20 anos que eu o assisto. O livro ganhei de mamãe quando tinha 14 anos. E ao longo dessa vida, me vi Celie, me vi Sophia e me vi Shug. Todas as vezes fui julgada.

Infelizmente não encontrei um trecho traduzido, mas o que Sophia diz é que ela passou a vida toda brigando com os homens, brigou com seu pai, com seus irmãos, com seus tios, mas ela nunca imaginou ter que brigar em sua própria casa. Sugiro às pessoas ver o filme completo.

Se você conhece uma mulher que sofre violência doméstica, ajude-a a denunciar, respeitando o tempo dela, mostrando que ela pode ter uma vida diferente e que ela não tem nenhuma culpa. Mas se ela não conseguir denunciar, faça você mesmx, sempre tomando cuidado para não expor a vida de ninguém. Denunciar é para todxs!

Que todos os dias sejam 25 de novembro!

Precisamos combater, precisamos denunciar a violência doméstica e familiar contra a mulher.

Axeô!

Floresta Nacional de Caxiuanã: rio, mata, encruzilhada

Dona Josefina e seu tímido sorriso.
Dona Josefina e seu tímido sorriso (clique na imagem para vê-la ampliada).

Dia 20 de outubro de 2014. Estamos a caminho de Belém. Já são oito dias navegando. Belém – Caxiuanã – Belém. Eu ansiava por essa rota há meses. Tinha ideia do que encontraria em Caxiuanã e do impacto emocional que eu teria naqueles dias de imersão na Floresta Nacional, na sede da Estação Científica Ferreira Penna. Mas o encontro com Dona Josefina, matriarca da Vila de Santa Cruz, comunidade do município de Melgaço, no Marajó (Pará), foi além do que eu projetei.

Sabia do meu encontro com as crianças. Que elas me esperavam. Meu coração as desejava sem nunca tê-las visto, até então.  Eu sabia que seria difícil voltar pra Belém depois do que elas me provocariam. Eu sabia que me sentiria em casa e que meu banzo amenizaria. Cinco dias me fariam revirar por dentro. Saí de Belém avisando que eu não voltaria e que, caso voltasse, as traria comigo.

Chegamos à Estação às 2:30h da manhã do dia 15 de outubro. Foram mais de 30 horas navegando. Saímos de Belém pelo rio Guamá, cruzamos a Baía do Guajará, rio Pará, Estreito de Breves, trocamos de barco em Breves, passamos por Portel e Melgaço, entramos no rio Anapu, Baía do Pacajá e, por fim, no rio Curuá. Os barcos com as comunidades começaram a chegar na tarde do mesmo dia.

Eram crianças, adolescentes, educadores chegando com seus gritos de paz, cartazes, sorrisos, abraços e afagos, para participarem da programação das oficinas educativas e das atividades esportivas na VI Olimpíada de Ciências na Flona de Caxiuanã. Algumas levaram as mesmas 24 horas que nós, só que vindos de localidades da “vizinhança” da Estação. E chegaram cheias de entrega e disposição, mais do que timidez. Sem distinção, aconchegam quem já é de casa e quem vem a primeira vez. Dez escolas, 165 crianças e adolescentes.

Avistei dona Josefina de longe. Senhorinha miúda, negra, de cabeleira completamente branca. Lembrei de vovó Ondina, mãe de mamãe, uma herdeira de indígenas vinda do Maranhão pro Pará. Paixão à primeira vista. Imediatamente procurei motivos para me aproximar dela. Dei a sorte de ter as crianças para abrirem o caminho e consegui alcança-la com a desculpa de vê-la ensinando a molecada a fazer fogo na lenha. Não deu tempo de assistir o ensinamento, mas ganhei a chance da prosa simples e do riso fácil. Descobri que ela tem fogão a gás, mas como forma de economizar, sua filha também cultiva o hábito do fogão a lenha.

Daí em diante meu coração fez festa. Dona Josefina Valente da Costa tem 77 anos, sete filhos e mora na Vila de Santa Cruz “a vida toda”, segundo ela, mas na prática mudou pra lá quando mocinha. Casou e nunca mais saiu da comunidade. Não conhece Belém, mal conhece Melgaço e Breves. Depois do falecimento de seus sogros e de seu marido, dona Josefina é a pessoa mais velha da família.

A Vila de Santa Cruz é ocupada por oito casas. Pouco mais de 50 pessoas. E todas com relação consanguínea. Filhas, filhos, sobrinhas e sobrinhos, netas e netos. Todo mundo é parente de Dona Josefina. Sua neta, Denise, de 15 anos, estava participando das Olimpíadas. Ao que comentei sobre sua beleza, dona Josefina riu sem jeito e me disse “ah, nem gosto de me mostrar a feiura”. Ela sabe que a mãe veio do Piauí, mas não lembra muito bem da fisionomia dela, então não sabe se parece com ela ou com o pai. Como tantas, não sabe quem é o pai, pois “ele era de fora”.

Cheguei à Vila para registrar a interação dos alunos da oficina de Fotografia e Sustentabilidade. Quinze minutos de rabeta distanciam a Estação da Vila. A comunidade é evangélica, fundaram uma Igreja da Assembleia de Deus em janeiro de 2013, e o pastor é filho da dona Josefina. Não existem grades nas janelas e nas portas de nenhuma casa. Para fazer as refeições, há um refeitório comum, com uma mesa bem grande. Comunidade ribeirinha, com casa de produção de farinha, variada flora, crianças e animais crescendo juntos. Não conhecem engarrafamento, sequestro relâmpago ou ônibus lotado. Vivem da pesca e da produção da farinha. Para estudarem, as crianças são atendidas pelo barco da prefeitura que as leva a uma comunidade maior onde há a escola.

Foram pequenos doze minutos de prosa com Dona Josefina. Oito dias na Estação. Cinco dias com as crianças. O suficiente para saber que a Flona de Caxiuanã tem tudo que eu preciso: rio, mata, encruzilhada. E a sensação de estar em casa.

14 afro-saberes


14 afro-saberes

Thiane Neves Barros

 “(…) Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na África, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual.” (Leonardo Boff)

Sagrada
África amada
Ancestral

África negra
Sequestrada
Dilacerada

Divindades
Dançando, os sentimos em nós
pele
Pés, voz e mãos

Aiê e Orum
Na sinergia desse conjunto habita a resistência africana
Mosaico de sorrisos
Ubuntu!

Do.a.ção
Doar
Ação
Partilha. Poesia

14 formas de entrega corporal e espiritual
14 receitas de sedução
Duelo de sorrisos

Que os Ibeji estejam vivos entre nós
Rodantes, sedutores
Não tranquem as ruas!
10.639 afro-saberes
Espalhados ao abantu

E todos ouvirão:

A memória
Foi solta!

Originalmente publicado em: http://www.radiomargarida.org.br/

Itamar Assumpção

to imersa no Itamar desde quinta passada, me ocorreu que essa história de sermos finitos é um papo furado doido, a finitude foi inventada, nenhuma pessoa morrerá eternamente, haverá sempre alguém para lembrá-la. não vou morrer, serei lembrada. não vou morrer, nem vou voltar, estarei sempre aqui, ecoando, em vento, verso, prosa, fofoca.

ah herança banzeira …

viver a diáspora virtual

Movimentar aqui e ali, buscar espaços enegrecidos e afro-centrados.
conectar pensamentos negros, femininos, masculinos, interseccionais.
Não sei o que será esse blog, no que ele se transformará e como será a dinâmica por aqui, assim como o barro de Nanã, aqui vou moldando a caminhada.
Venha sempre, traga mais gente, vamos partilhar e moldar juntxs!
Axeô!