CHIMAMANDA ADICHIE: O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA

“Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que eu gosto de chamar “o perigo de uma história única.” Eu cresci num campus universitário no leste da Nigéria. Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho que 4 é provavelmente mais próximo da verdade. Então, eu fui uma leitora precoce. E o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos.

Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha pobre mãe era obrigada a ler, eu escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido (Risos). Agora, apesar do fato que eu morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos sobre o tempo porque não era necessário.

Meus personagens também bebiam muita cerveja de gengibre porque as personagens dos livros britânicos que eu lia bebiam cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do que era cerveja de gengibre. E por muitos anos depois, eu desejei desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é uma outra história.

A meu ver, o que isso demonstra é como nós somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história, principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros nos quais as personagens eram estrangeiras, eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura.

Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.

Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são.

Eu venho de uma família nigeriana convencional, de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe, administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos, arranjamos um novo menino para a casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe enviava inhames, arroz e nossas roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: “Termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada?”.

Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide.

Então, um sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um cesto com um padrão lindo, feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles.

Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos. Minha colega de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês como sua língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir o que ela chamou de minha “música tribal” e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey (Risos).

Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão.

O que me impressionou foi que: ela sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade.Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais.

Eu devo dizer que antes de ir para os Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim. Não importava que eu não sabia nada sobre lugares como a Namíbia. Mas eu acabei por abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi meu maravilhoso voo dos Lagos 2 dias atrás, não fosse um anúncio de um voo da Virgin sobre o trabalho de caridade na “Índia, África e outros países.”

Então, após ter passado vários anos nos EUA como uma africana, eu comecei a entender a reação de minha colega para comigo. Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria os africanos do mesmo jeito que eu, quando criança, havia visto a família de Fide.

Eu acho que essa única história da África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação de um mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África em 1561 e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros africanos como “bestas que não tem casas”, ele escreve: “Eles também são pessoas sem cabeças, que têm sua boca e olhos em seus seios.”

Eu rio toda vez que leio isso, e alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias africanas no Ocidente. Uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta, Rudyard Kipling, são “metade demônio, metade criança”.

E então eu comecei a perceber que minha colega de quarto americana deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me disse que meu romance não era “autenticamente africano”. Bem, eu estava completamente disposta a afirmar que havia uma série de coisas erradas com o romance, que ele havia falhado em vários lugares. Mas eu nunca teria imaginado que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana. Na verdade, eu não sabia o que era “autenticidade africana”. O professor me disse que minhas personagens pareciam-se muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas. Por isso elas não eram autenticamente africanos.

Mas eu devo rapidamente acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu visitei o México saindo dos EUA. O clima político nos EUA àquela época era tenso. E havia debates sobre imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinônimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavam espoliando o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa.

Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalajara, vendo as pessoas indo trabalhar, enrolando tortilhas no supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que meu primeiro sentimento foi surpesa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia estado tão imersa na cobertura da mídia sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma.

Então, é assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão.

É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro.” Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do “nkali”. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.

Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com “em segundo lugar”.

Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente.

Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.

Recentemente, eu palestrei em uma universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens nigerianos fossem agressores físicos como a personagem do pai no meu romance. Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado Psicopata Americano e que era uma grande pena que jovens americanos fossem assassinos em série.

É óbvio que eu disse isso num leve ataque de irritação.

Nunca havia me ocorrido pensar que só porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em série, que isso era, de alguma forma, representativo de todos os americanos. E agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas, devido ao poder cultural e econômico da América, eu tinha muitas histórias sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não tinha uma única história sobre a América.

Quando eu soube, alguns anos atrás, que escritores deveriam ter tido infâncias realmente infelizes para ter sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis que meus pais teriam feito comigo (Risos). Mas a verdade é que eu tive uma infância muito feliz, cheia de risos e amor, em uma família muito unida.

Mas também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica adequada. Um dos meus amigos mais próximos, Okoloma, morreu em um acidente aéreo porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizavam a educação, então, por vezes, meus pais não recebiam seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia desaparecer do café-da-manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E, acima de tudo, um tipo de medo político normalizado invadiu nossas vidas.

Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história.

Claro, a África é um continente repleto de catástrofes. Há as enormes, como as terríveis violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que não são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas.

Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.

E se antes de minha viagem ao México, eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família de Fide era pobre e trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para todo o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama “um equilíbrio de histórias.”

E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu trabalho em um banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava. Ele sentiu que pessoas que podiam ler, leriam se a literatura se tornasse acessível e disponível para eles.

Logo após ele publicar meu primeiro romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher que trabalhava lá como mensageira veio a mim e disse: “Eu realmente gostei do seu romance, mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma sequência, e isso é o que vai acontecer…” (Risos). E continuou a me dizer o que escrever na sequência. Agora eu não estava apenas encantada, eu estava comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns de nigerianos, que não se supunham ser leitores. Ela não tinha só lido o livro, mas ela havia se apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência.

Agora, e se minha colega de quarto soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show de TV em Lagos, e que está determinada a contar as histórias que nós preferimos esquecer? E se minha colega de quarto soubesse sobre a cirurgia cardíaca que foi realizada no hospital de Lagos na semana passada? E se minha colega de quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas cantando em inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de Jay-Z a Fela (Kuti), de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse sobre a advogada que recentemente foi ao tribunal na Nigéria para desafiar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores exemplos de que nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os milhões de outros nigerianos que começam negócios e às vezes fracassam, mas continuam a fomentar ambição?

Toda vez que estou em casa, sou confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele. Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo verão. E é extraordinário pra mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por escrever, por contar histórias.

Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura e escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias.

Histórias importam.

Muitas histórias importam.

Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.

A escritora americana Alice Walker escreveu isso sobre seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinham deixado para trás. “Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado.”

Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso.

Obrigada.”

Tradução originalmente publicado em Papo de Homem.

 

 

 

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Nem macacos, nem Maju: hashtag não combate o racismo.

Eu sei que muita gente não vai ler esse post até o final, porque as pessoas querem ver beleza e infelizmente não existe beleza no racismo. A quem se predispor, seguem minhas considerações sobre “este caso recente de racismo no Brasil”. Quem quiser debater – DEBATER – a gente tamos aí. ;)

Pois bem, a Maju virou notícia APENAS porque o ataque foi na página do Jornal Nacional. Se tivesse sido na rua – como acontece diariamente – ou no Facebook dela – como acontece com a Cristiane Damacena, por exemplo – a TV Globo JAMAIS teria dado espaço para a voz de Maju fazer ecoar a palavra PRECONCEITO. E vejam, em momento algum ela deu nome ao crime que fora praticado contra ela. Esse crime tem nome, chama-se RACISMO (Lei 7.716/89). Mas como para Ali Kamel (diretor de jornalismo da emissora) não existe racismo no Brasil, a Maju não mencionou o tal crime.

Curiosamente a Globo não deu a mesma importância quando a Angélica (que participou do BBB de 2015) também foi insultada, ofendida e atacada por racistas. Sabem o que a emissora fez? Silenciou Angélica. Ninguém colocou # pra defendê-la, pois Angélica é uma indignada que não usa de eufemismos pra manifestar sua dor. É barraqueira, como dizem.

Maju, com todo seu gingado – típico de mulheres inteligentes afirmam os machistas – encarou a coisa toda com altivez, sorriso e – de novo na Globo – com suavidade. E creiam em mim, racismo nunca será suave, assim como nada no JN é dito sem o aval de Ali Kamel, portanto, aquela cena – de novo romantizada – foi construída. O texto de Maju foi editado. Mas Ali Kamel manja tanto dos paranauê (roteiro, emoção, envolvimento … drama), que ele ATÉ permitiu que Maju falasse de seu pai militante. Portanto, empoderada como é Maju, certamente ela NUNCA teria abdicado de dar nome aos bois, não foi apenas preconceito, foi RACISMO.

E o que houve com Maju só é possível porque há uma estrutura que banca o racismo no dia a dia, com o qual ninguém se indigna, ninguém percebe, nem faz hashtag. É o racismo dito em piada, é o constrangimento diário, o “conta até dez” imposto a quem sofre racismo.

Apenas hashtag não combate o racismo, não prende racista. O que dá jeito em racismo é denúncia, aplicação da lei e cadeia.

Vocês sabem a repercussão da expressão “somostodosmaju”? Oito páginas, um evento com 16 mil pessoas convidadas e 2.200 confirmações, um grupo público com 175  membros, pessoas que trocaram seus nomes e acrescentaram #somostodosmaju em seus perfis. Monte de gente colocou a foto de Maju no lugar da sua. Mais de 50mil menções de #somostodosmaju (e suas variações) no Google. Mas quantas dessas pessoas são a favor das cotas raciais? Quantas acham que todo preto é suspeito de ser bandido ou acham que fulano tem o pé na senzala porque anda com gente preta? Quantas dessas pessoas já não mudaram de direção ou puxaram a bolsa mais pra si quando viram um homem negro vindo em sua direção? Quantas dessas pessoas não acham que mulher negra trabalha apenas como doméstica? Quantas dessas pessoas acham Maju exótica? Quantas pessoas a acham “uma negra bonita”?

Quantas dessas pessoas “chutam que é macumba”?

E quantas acreditam piamente em racismo reverso? Ou acusam as pessoas negras de “serem os primeiros a terem preconceitos”? Ou diz que o movimento negro é radical? Falta coerência, gente. A solidariedade é importante, mas não é de bom tom protagonizar uma cena que não é sua. Nem somos todos macacos, nem somos todos Maju. Ainda que eu entenda a gentileza dessas centenas de pessoas em demonstrar indignação por Maju.

Na página do Globo Esporte, por exemplo, uma ilustração mostra um grupo de pessoas a segurar uma faixa com a # criada, mas entre essas pessoas, apenas 1 mulher negra (que seria a própria Maju). Simbólico, sim? Maju não tem outras mulheres negras como pares. Muito simples.

No Catraca Livre a notícia é “Equipe do Jornal Nacional lança campanha contra o preconceito #somostodosmaju”. Se há uma empresa que ensina sobre comunicação é a Globo. Bestas nem nada, vão capitalizar o assunto. Quanto de patrocínio foi vendido pra essa campanha? Pra quem ainda não sabe, ano passado a Globo atacou e acusou as Blogueiras Negras de imbecis, burras, iletradas, vitimistas … porque nós não rimos de Sexo e as Nega. Mas agora a Globo é Maju desde criancinha. Só não temos representantes negras como apresentadoras e líderes, apenas na cozinha da Ana Maria Braga e das telenovelas. Nos comerciais publicitários nós só somos representadas quando é sobre Bolsa Família ou sobre projetos assistencialistas do Luciano Huck e pares. Bonner nunca será Maju. Renata Vasconcelos nunca será Maju.

Já falei pra vocês sobre racismo? Tem gente homenageando Maju com pintura preta na cara e isso também tem nome: blackface. É racismo também. E sabem por que as pessoas se acham o máximo se pintando de preto e tirando fotografia em apoio à Maju? Porque estas mesmas pessoas nunca leram uma linha sequer sobre o que temos escrito por todos esses anos.

Vejo as pessoas elogiarem Maju. “É linda!”. É competente”. “É simpática”. Eu concordo com tudo isso, Maju é diva mesmo! Mas é por isso que ela recebeu tanto apoio? Porque ela sorri ao invés de chorar e o que querem da mulher negra é que apenas sambe, ria e distribua charme, sem reclamar, sem gritar, sem  expor sua dor? Sabe aquelas frases do tipo “tão bonito o rosto da fulana ou do fulano, pena que é gorda/o”, “fulana é tão bonita e tão jovem e foi assassinada”, “fulano é tão bonito, mas é gay”, “fulano é pobre, mas não é bandido” … etc etc etc. Os elogios à Maju caem nesse fosso bem aí. Apenas para reiterar: Maju merece todos os elogios. Absolutamente todos! Mas não merece que a apoiem apenas por isso. Ela merece ser apoiada tanto quanto estudantes negros cotistas merecem e precisam ser apoiados. E tanto quanto nossas lutas por políticas de reparação à segregação racial vivenciada pelo povo negro no Brasil.

Teve um rapaz que escreveu “Homofobia na pauta diária e, agora, racismo… Brasil, você consegue ser mais ridículo que o 7×1”. Ênfase para “e, agora, racismo …” E eu me pergunto: cadê as aulas de história dessas escolas? Arrancaram as páginas que contam dos quase 400 anos de escravidão negra? Gente … gente, gente … esta Nação foi construída apoiando e praticando o racismo, amores meus. Vocês querem ser legais? Reconheçam isso. Pura e simplesmente. Não precisa enfiar uma melancia na cabeça pra dizer que se reconheceu racista, apenas reconheça. Vi também um jogador de futebol negro que escreveu “2015 e ainda tem imbecil no mundo pra ser racista?”, mas esse mesmo moço namora uma moça branca, loira … não uma mulher negra e tals … ah, mas o amor não tem cor!

O Brasil está cheio de Majus e de meninas e mulheres negras que sonham em ser Maju, mas que nunca serão. São mulheres negras competentes, como qualquer pessoa, mas que são interditadas como qualquer pessoa … negra.

Mas o que eu queria dizer mesmo é que o peso de ser qualquer Maju não é hashtag de Facebook. Sejamos mais honestes conosco. Sejamos melhores do que a Globo, pelo menos.

Diálogos infantis: Mariazinha e Pedrinho. Ou, sejamos mais crianças!

Era noite e a lua estava radiante!

Fui visitar minha querida Isabela Lago, aka Troveja, em seu aniversário de 38 anos. Momento delicado na vida dessa filha de Oyá. Um ente querido, jovem, negro, 22 anos, pai de uma garotinha de 4, filho de Lene, foi assassinado pela Rotam de Belém, na tarde do último 30 de abril.

Cheguei tarde e desesperada de fome. Mal dei boa noite às pessoas que já estava falando de boca cheia. Bolo e lasanha feitos por su madrecita. Duas delícias repetíveis até passar mal.

Para falarmos num pouco de privacidade, fomos sentar lá na calçada, na rua. Clima ameno, fresco. Coisa rara em Belém. Falamos sobre Felipe (o filho de Lene) e a experiência que Isabela teve nesse processo de despedida. Rimos. Refletimos. Lamentamos. Isabela chorou por dor de lembrar de alguns detalhes.

Ao longo do tempo que lá ficamos, fomos rodeadas pela Mariazinha e pelo Pedrinho. Ela tem 7 e ele 6 anos. São primos , vizinhos e amigos. E corriam e gritavam e suavam e nos esbarravam e todas essas peraltices. Lá pelas tantas, começaram a discutir e nos pusemos atentas ao diálogo.

Ela queria brincar de uma coisa e ele de outra coisa. Naquele debate acalorado, não sou capaz de dizer quem queria brincar de que, discutiam entre brincar de pira-esconde (esconde-esconde) e jogo de perguntas. Sei bem que a Isabela disse: “minha filha, você tem que negociar, faça um acordo” e Mariazinha, com o mais tranquilo semblante rebateu: “ah mãe, mas eu não gosto de negociar, gosto de brincar”. Não consegui segurar minha estrondosa gargalhada. A bicha chega ecoou na rua deserta e silenciosa da rua Marajó, no conjunto Marex.

Pois bem, resolveram, não sei como, brincar primeiro de pira-esconde.

Antes, quero dizer de como estavam ambos vestidos. Maria usava um vestido azul claro, eu acho, e sandália tipo percata, com led (aquela luz que brilha no escuro). Pedro estava de bermuda, camiseta de gola e chinela de dedo.

Pedro: “vai te esconder, eu sou a mãe”.

E Maria correu menos de dois metros, se escondeu atrás de uma árvore mais magra que ela e bem embaixo de um poste de iluminação pública e, calçada em sua sandália com luz de led, se agachou esperando que Pedro não a visse. A coitadinha ainda por cima caiu de bumbum no chão, chamando atenção do amigo-primo. Quase morro de tanto rir, de novo, daquela criatura ingênua se escondendo no lugar mais visível da rua e tão perto de Pedrinho, a mãe, que não seriam necessários mais que 30 segundos para vê-la.

Foi exatamente o que aconteceu. Pedrinho virou e viu Mariazinha. Pois bem, foi a vez de Maria ser a mãe. Não lembro porque, mas novamente discutiram e aos risos Maria solta: “anda mulher, vai logo te esconder pra lá” e apontou pra uma direção da rua, pra onde Pedrinho se dirigiu e se escondeu. Morri de rir de novo, como assim Maria tava escolhendo o lugar pra ele se esconder e ele topou? Mas meu encanto não parou aí.

Maria conferiu e foi atrás de Pedrinho. Só que o moleque foi esperto e se escondeu de verdade, Maria tava com medo de ir atrás. Lá no meio da rua ela grita: “Pedrinhoooooooooooo”, como quem o tivesse visto. Olhamos, eu e Isabela, mas a rua tava vazia. Rimos, lógico. Maria estava blefando. E Isabela estimulou: “vai lá, filha, vai atrás dele”. E Maria foi. Mas foi tão perto que Pedrinho saiu do esconderijo e conseguiu correr mais do que ela, bateu na parede e se livrou de ser a mãe novamente.

Rimos de novo e de novo:  “como são bobos” e começamos a lembrar do que fazíamos para nos escondermos.

Depois foram discutir sobre o jogo de perguntas, não houve acordo. Novamente estavam num impasse. Até que deu a hora e Pedrinho foi embora.

Mas porque resolvi descrever essa cena? Apenas porque Pedrinho foi a “mãe” e Maria o chamou de “mulher” e nenhuma coisa, nem outra, afetou a masculinidade de um moleque de 6 anos de idade. Aprendamos com as crianças, suas espontaneidades e seus desapegos às categorias. Ou seja, apenas sejamos felizes.

<3

pedro e maria
Pedrinho e Mariazinha: que essa infância seja de inspirações eternas!

Posição do movimento negro com relação à redução da idade penal de 18 para 16 anos

Por Nilma Bentes

(em mensagem escrita em bom e escuro pretuguês e enviada por e-mail aos grupos negros)

“Olá afro-negras-pessoas: saúde!

Estive ontem – só na parte da manhã -, em uma atividade no Emaús (encontro sobre segurança pública, Direitos humanos e Movimento Sociais) e soube que existem algumas pessoas de  movimentos sociais e do sistema educacional, que vem tomando posições a favor da redução da maioridade penal, motivadas (tudo indica) , pelos discursos de programas de TVs do tipo Datena, Marcelo Rezende e os semelhantes a nível local. A maioria de nós sabe que essa medida afetará sobretudo a população negra e toda a que mora em bairros chamados de ´periferia´ e que continua longe de receber tratamento igualitário em nossa sociedade. Ou seja, quem primeiro viola os direitos é o próprio estado que não cria condições adequadas (educação, saúde, falta de creches, espaços esportivos e de lazer saudáveis) para uma coesão de famílias da camada de baixa renda. Soube lá nesse evento que só  na região metropolitana de Belém existem 3 (três) milícias (grupo de pessoas que formam uma tropa ilegal e que procuram ameaçar e matar pessoas e que geralmente são pagas por gente da classe dominante ou empresarial). Essa redução da idade penal não afetará os adolescentes brancos e ricos – inclui aqueles que bebem, fumam maconha, cheiram pó e usam outras drogas que se reúnem, muitas vezes  em postos de gasolina e em lugares reservados a eles por eles mesmos.

Entre os interessados na redução da maioridade penal (dá para saber porque querem reduzir só a idade penal e não para outras questões?) estão  grupos empresariais que querem privatizar os presídios (ou seja, que as cadeias deixem de ser de responsabilidade do Estado e passem a ser administradas por empresas que visam lucro,  pois como as atuais cadeias estão superlotadas, com o aumento de prisioneiros (que serão os menores de 18 anos; se passar essa  lei), o estado poderá ser obrigado a ´terceirizar´ (privatizar) a administração dos presídios.

De quanto será o aumento de mães (chefe de famílias, inclusive) que estão na pobreza (camada de baixa renda) e que trabalham o dia todo,  passarão a chorar mais por verem seus  filhos e filhas  na prisão?

Quem é mesmo responsável pelo tráfico de drogas? Acho que a maioria dos ativistas sociais sabem que pessoas de baixa renda não tem capital para comprar drogas para revenda ; a maioria dos envolvidos com drogas e que estão na pobreza,  são usados mais para distribuir e se viciar. É dever do estado tratar duramente dessa questão do tráfico.

Por outro lado, quem já visitou um presídio ou celas de delegacias sabe que as pessoas são tratadas como animal enjaulado (aliás, muitos animais são tratados melhor que gente). Muitas pessoas que estiveram presas saem da prisão sem ter condições de manter longe do crime (sem trabalho ou qualquer apoio para não voltar ao crime; tem casos de presos que foram soltos mas moravam em outro município, que não recebem qualquer grana nem para comprar passagem para voltar a  seu município ou para comer logo no dia que são soltos. E aí?

Pois é; como diz a gíria, ´o buraco é mais a abaixo´, ou seja, não é reduzindo a maioridade que o problema vai ser resolvido. É  verdade que muitos adolescentes (e até crianças) sabem o que “ muitas coisas não se deve fazer”  mas a deficiência na socialização, na coesão da família (e outros motivos),  faz com que muitos jovens se agrupem em ´gangues´,   para fazer coisas que não fariam se estivessem sozinhos.

É bom lembrar que quando a gente entra nos grandes ´shoppings´ , por exemplo, logo se vê que as desigualdades sócio-raciais são enormes : as pessoas que trabalham nas lojas, geralmente,  são todas brancas (geralmente só na seguranças e na limpeza se vê pessoas negras) e neles  tem vitrines com coisas que os que estão na  pobreza só podem ´olhar´ e não comprar). Mas mesmo assim os anúncios nas TVs estimulam todo mundo a consumir, consumir, consumir e dizem  que todas pessoas podem ter o que desejam;  que não existe racismo;  que existe liberdade e falam outras ´enganações´ .

Ora, se adulto que é adulto e foi até bem educado, ´faz besteira´ até à velhice,  imaginem jovens de 16 anos. Os adultos que querem a ´redução´ deviam tentar se lembrar de como eram quanto tinham 16 anos  (sabe-se até que tem uns políticos que cheiravam pó, outros fumavam maconha, quando jovens), ou seja, tentar refletir melhor antes de querer colocar todo mundo no presídio. Está se confirmando  que esse congresso nacional atual (deputados e deputadas; senadores e senadores que fazem as principais leis)  é o mais conservador (retrógrado) dos últimos tempos e que o predomínio são as bancadas dos 4 ´Bs´: bancada do Boi (latifundiários, que não querem a reforma agrária, nem  demarcação das terras indígenas e quilombos); da Bala (muitos ligados às polícias que são contra o desarmamento e muitos estão a serviço  de  empresas que fabricam e vendem armas); da Bola (muitos ex-jogadores ou dirigentes de futebol ou outro esporte, alguns com suas ´armações de resultados´, compra e venda de jogadores para lucro pessoal ); e da Bíblia ; nem todos, mas a maioria desses   ´pastores´ (mesmo na Amazônia, onde quase não tem ´ovelhas´),  que pregam que  ´prosperidade´ (inclui a ´ganância sadia; ´juros cristãos´, etc.),  está ao alcance de todos ;  são os da ala “pequenas igrejas; grandes negócios”, outros são dos que acham que “só nos  grandiosos templos  o Espírito Santo se apresentará”  e ainda outros, que acham que “ Deus é surdo porque fazem suas pregações  aos gritos”, sendo que quase  todas acham que só elas (alas) sabem da ´verdade sagrada´ e desrespeitam as outras religiões, sobretudo, as de matrizes africana e afro-indígenas.

Além dessa ala dos ´4 Bs ´ existem mais gente  retrógradas, a maioria apoiada pela grande mídia (grandes redes TVs e canais de TVs cristãs e evangélicas, jornais, revistas e) que tem interesses contrários à construção da equidade e querem eliminar algumas conquistas legais alcançadas com muito esforço e impedir avanços, sobretudo a causas como a nossa – igualdade/equidade racial.

Juro que quando iniciei esta mensagem não sabia que ela sairia tão longa, mas confesso que fiquei preocupada com o que ouvi ontem no Emaús, e com receio que dentre os ativistas dessas esteja alguém que queira ´cuspir pra cima´ e apoiar a ideia de redução da maioridade penal.

Parece que dessa vez todas as organizações sociais vão ter mesmo que se unir (há muita divergência, ciumeiras, incompreensões  entre movimentos/organizações e outros setores interessados na construção da democracia plena) , pois as forças – sobretudo da chamada ´direita´-, apoiada pela grande mídia,  quer estraçalhar com as poucas conquistas que foram alcançadas a partis da Constituição Federal de 1988 (uns setores falam até em voltar à Ditadura Militar; isso é absurdo, pois quem viveu esse tempo sabe que é terrível). Parece que vamos ter de ativar mais ainda nosso ´estoque de coragem´ para enfrentar esse novo ataque dos ´neoliberais´( que querem sempre  a redução do Estado e a ampliação dos espaços de empresas privadas, inclusive multi e transnacionais).

É preciso muita atenção pois toda vez que os da camada de alta renda (que estão na riqueza) gostam de algumas iniciativas do congresso nacional/Assembleias Legislativas/Câmaras Municipais, geralmente  essas irão prejudicar a população de baixa renda, onde está concentrada a população negra – é ´nois na foto´.

Por favor, quem conseguiu ler até aqui, leia  também a nota do movimento negro nacional  a seguir ( quando esta versão foi publicada a AMNB e outras ainda não tinham se pronunciado; mas já assinaram) e o anexo.”

Manifesto oficial do movimento negro brasileiro sobre a PEC 171/93
Manifesto oficial do movimento negro brasileiro sobre a PEC 171/93

Drops I

Dias de falar no tempo. Temos falado no tempo todos os dias. O tempo resolve? Cura dores? Apaga memórias? É possível otimizar o tempo? Usá-lo a nosso favor?

Talvez … talvez … no dia que aprendermos a respeitar o tempo, qualquer tempo (divino, físico ou astral), independente de fé no acaso ou no sobrenatural, talvez …   soframos menos. O tempo não cabe nessa caixa de tic tac.