Nem macacos, nem Maju: hashtag não combate o racismo.

Eu sei que muita gente não vai ler esse post até o final, porque as pessoas querem ver beleza e infelizmente não existe beleza no racismo. A quem se predispor, seguem minhas considerações sobre “este caso recente de racismo no Brasil”. Quem quiser debater – DEBATER – a gente tamos aí. ;)

Pois bem, a Maju virou notícia APENAS porque o ataque foi na página do Jornal Nacional. Se tivesse sido na rua – como acontece diariamente – ou no Facebook dela – como acontece com a Cristiane Damacena, por exemplo – a TV Globo JAMAIS teria dado espaço para a voz de Maju fazer ecoar a palavra PRECONCEITO. E vejam, em momento algum ela deu nome ao crime que fora praticado contra ela. Esse crime tem nome, chama-se RACISMO (Lei 7.716/89). Mas como para Ali Kamel (diretor de jornalismo da emissora) não existe racismo no Brasil, a Maju não mencionou o tal crime.

Curiosamente a Globo não deu a mesma importância quando a Angélica (que participou do BBB de 2015) também foi insultada, ofendida e atacada por racistas. Sabem o que a emissora fez? Silenciou Angélica. Ninguém colocou # pra defendê-la, pois Angélica é uma indignada que não usa de eufemismos pra manifestar sua dor. É barraqueira, como dizem.

Maju, com todo seu gingado – típico de mulheres inteligentes afirmam os machistas – encarou a coisa toda com altivez, sorriso e – de novo na Globo – com suavidade. E creiam em mim, racismo nunca será suave, assim como nada no JN é dito sem o aval de Ali Kamel, portanto, aquela cena – de novo romantizada – foi construída. O texto de Maju foi editado. Mas Ali Kamel manja tanto dos paranauê (roteiro, emoção, envolvimento … drama), que ele ATÉ permitiu que Maju falasse de seu pai militante. Portanto, empoderada como é Maju, certamente ela NUNCA teria abdicado de dar nome aos bois, não foi apenas preconceito, foi RACISMO.

E o que houve com Maju só é possível porque há uma estrutura que banca o racismo no dia a dia, com o qual ninguém se indigna, ninguém percebe, nem faz hashtag. É o racismo dito em piada, é o constrangimento diário, o “conta até dez” imposto a quem sofre racismo.

Apenas hashtag não combate o racismo, não prende racista. O que dá jeito em racismo é denúncia, aplicação da lei e cadeia.

Vocês sabem a repercussão da expressão “somostodosmaju”? Oito páginas, um evento com 16 mil pessoas convidadas e 2.200 confirmações, um grupo público com 175  membros, pessoas que trocaram seus nomes e acrescentaram #somostodosmaju em seus perfis. Monte de gente colocou a foto de Maju no lugar da sua. Mais de 50mil menções de #somostodosmaju (e suas variações) no Google. Mas quantas dessas pessoas são a favor das cotas raciais? Quantas acham que todo preto é suspeito de ser bandido ou acham que fulano tem o pé na senzala porque anda com gente preta? Quantas dessas pessoas já não mudaram de direção ou puxaram a bolsa mais pra si quando viram um homem negro vindo em sua direção? Quantas dessas pessoas não acham que mulher negra trabalha apenas como doméstica? Quantas dessas pessoas acham Maju exótica? Quantas pessoas a acham “uma negra bonita”?

Quantas dessas pessoas “chutam que é macumba”?

E quantas acreditam piamente em racismo reverso? Ou acusam as pessoas negras de “serem os primeiros a terem preconceitos”? Ou diz que o movimento negro é radical? Falta coerência, gente. A solidariedade é importante, mas não é de bom tom protagonizar uma cena que não é sua. Nem somos todos macacos, nem somos todos Maju. Ainda que eu entenda a gentileza dessas centenas de pessoas em demonstrar indignação por Maju.

Na página do Globo Esporte, por exemplo, uma ilustração mostra um grupo de pessoas a segurar uma faixa com a # criada, mas entre essas pessoas, apenas 1 mulher negra (que seria a própria Maju). Simbólico, sim? Maju não tem outras mulheres negras como pares. Muito simples.

No Catraca Livre a notícia é “Equipe do Jornal Nacional lança campanha contra o preconceito #somostodosmaju”. Se há uma empresa que ensina sobre comunicação é a Globo. Bestas nem nada, vão capitalizar o assunto. Quanto de patrocínio foi vendido pra essa campanha? Pra quem ainda não sabe, ano passado a Globo atacou e acusou as Blogueiras Negras de imbecis, burras, iletradas, vitimistas … porque nós não rimos de Sexo e as Nega. Mas agora a Globo é Maju desde criancinha. Só não temos representantes negras como apresentadoras e líderes, apenas na cozinha da Ana Maria Braga e das telenovelas. Nos comerciais publicitários nós só somos representadas quando é sobre Bolsa Família ou sobre projetos assistencialistas do Luciano Huck e pares. Bonner nunca será Maju. Renata Vasconcelos nunca será Maju.

Já falei pra vocês sobre racismo? Tem gente homenageando Maju com pintura preta na cara e isso também tem nome: blackface. É racismo também. E sabem por que as pessoas se acham o máximo se pintando de preto e tirando fotografia em apoio à Maju? Porque estas mesmas pessoas nunca leram uma linha sequer sobre o que temos escrito por todos esses anos.

Vejo as pessoas elogiarem Maju. “É linda!”. É competente”. “É simpática”. Eu concordo com tudo isso, Maju é diva mesmo! Mas é por isso que ela recebeu tanto apoio? Porque ela sorri ao invés de chorar e o que querem da mulher negra é que apenas sambe, ria e distribua charme, sem reclamar, sem gritar, sem  expor sua dor? Sabe aquelas frases do tipo “tão bonito o rosto da fulana ou do fulano, pena que é gorda/o”, “fulana é tão bonita e tão jovem e foi assassinada”, “fulano é tão bonito, mas é gay”, “fulano é pobre, mas não é bandido” … etc etc etc. Os elogios à Maju caem nesse fosso bem aí. Apenas para reiterar: Maju merece todos os elogios. Absolutamente todos! Mas não merece que a apoiem apenas por isso. Ela merece ser apoiada tanto quanto estudantes negros cotistas merecem e precisam ser apoiados. E tanto quanto nossas lutas por políticas de reparação à segregação racial vivenciada pelo povo negro no Brasil.

Teve um rapaz que escreveu “Homofobia na pauta diária e, agora, racismo… Brasil, você consegue ser mais ridículo que o 7×1”. Ênfase para “e, agora, racismo …” E eu me pergunto: cadê as aulas de história dessas escolas? Arrancaram as páginas que contam dos quase 400 anos de escravidão negra? Gente … gente, gente … esta Nação foi construída apoiando e praticando o racismo, amores meus. Vocês querem ser legais? Reconheçam isso. Pura e simplesmente. Não precisa enfiar uma melancia na cabeça pra dizer que se reconheceu racista, apenas reconheça. Vi também um jogador de futebol negro que escreveu “2015 e ainda tem imbecil no mundo pra ser racista?”, mas esse mesmo moço namora uma moça branca, loira … não uma mulher negra e tals … ah, mas o amor não tem cor!

O Brasil está cheio de Majus e de meninas e mulheres negras que sonham em ser Maju, mas que nunca serão. São mulheres negras competentes, como qualquer pessoa, mas que são interditadas como qualquer pessoa … negra.

Mas o que eu queria dizer mesmo é que o peso de ser qualquer Maju não é hashtag de Facebook. Sejamos mais honestes conosco. Sejamos melhores do que a Globo, pelo menos.

Diálogos infantis: Mariazinha e Pedrinho. Ou, sejamos mais crianças!

Era noite e a lua estava radiante!

Fui visitar minha querida Isabela Lago, aka Troveja, em seu aniversário de 38 anos. Momento delicado na vida dessa filha de Oyá. Um ente querido, jovem, negro, 22 anos, pai de uma garotinha de 4, filho de Lene, foi assassinado pela Rotam de Belém, na tarde do último 30 de abril.

Cheguei tarde e desesperada de fome. Mal dei boa noite às pessoas que já estava falando de boca cheia. Bolo e lasanha feitos por su madrecita. Duas delícias repetíveis até passar mal.

Para falarmos num pouco de privacidade, fomos sentar lá na calçada, na rua. Clima ameno, fresco. Coisa rara em Belém. Falamos sobre Felipe (o filho de Lene) e a experiência que Isabela teve nesse processo de despedida. Rimos. Refletimos. Lamentamos. Isabela chorou por dor de lembrar de alguns detalhes.

Ao longo do tempo que lá ficamos, fomos rodeadas pela Mariazinha e pelo Pedrinho. Ela tem 7 e ele 6 anos. São primos , vizinhos e amigos. E corriam e gritavam e suavam e nos esbarravam e todas essas peraltices. Lá pelas tantas, começaram a discutir e nos pusemos atentas ao diálogo.

Ela queria brincar de uma coisa e ele de outra coisa. Naquele debate acalorado, não sou capaz de dizer quem queria brincar de que, discutiam entre brincar de pira-esconde (esconde-esconde) e jogo de perguntas. Sei bem que a Isabela disse: “minha filha, você tem que negociar, faça um acordo” e Mariazinha, com o mais tranquilo semblante rebateu: “ah mãe, mas eu não gosto de negociar, gosto de brincar”. Não consegui segurar minha estrondosa gargalhada. A bicha chega ecoou na rua deserta e silenciosa da rua Marajó, no conjunto Marex.

Pois bem, resolveram, não sei como, brincar primeiro de pira-esconde.

Antes, quero dizer de como estavam ambos vestidos. Maria usava um vestido azul claro, eu acho, e sandália tipo percata, com led (aquela luz que brilha no escuro). Pedro estava de bermuda, camiseta de gola e chinela de dedo.

Pedro: “vai te esconder, eu sou a mãe”.

E Maria correu menos de dois metros, se escondeu atrás de uma árvore mais magra que ela e bem embaixo de um poste de iluminação pública e, calçada em sua sandália com luz de led, se agachou esperando que Pedro não a visse. A coitadinha ainda por cima caiu de bumbum no chão, chamando atenção do amigo-primo. Quase morro de tanto rir, de novo, daquela criatura ingênua se escondendo no lugar mais visível da rua e tão perto de Pedrinho, a mãe, que não seriam necessários mais que 30 segundos para vê-la.

Foi exatamente o que aconteceu. Pedrinho virou e viu Mariazinha. Pois bem, foi a vez de Maria ser a mãe. Não lembro porque, mas novamente discutiram e aos risos Maria solta: “anda mulher, vai logo te esconder pra lá” e apontou pra uma direção da rua, pra onde Pedrinho se dirigiu e se escondeu. Morri de rir de novo, como assim Maria tava escolhendo o lugar pra ele se esconder e ele topou? Mas meu encanto não parou aí.

Maria conferiu e foi atrás de Pedrinho. Só que o moleque foi esperto e se escondeu de verdade, Maria tava com medo de ir atrás. Lá no meio da rua ela grita: “Pedrinhoooooooooooo”, como quem o tivesse visto. Olhamos, eu e Isabela, mas a rua tava vazia. Rimos, lógico. Maria estava blefando. E Isabela estimulou: “vai lá, filha, vai atrás dele”. E Maria foi. Mas foi tão perto que Pedrinho saiu do esconderijo e conseguiu correr mais do que ela, bateu na parede e se livrou de ser a mãe novamente.

Rimos de novo e de novo:  “como são bobos” e começamos a lembrar do que fazíamos para nos escondermos.

Depois foram discutir sobre o jogo de perguntas, não houve acordo. Novamente estavam num impasse. Até que deu a hora e Pedrinho foi embora.

Mas porque resolvi descrever essa cena? Apenas porque Pedrinho foi a “mãe” e Maria o chamou de “mulher” e nenhuma coisa, nem outra, afetou a masculinidade de um moleque de 6 anos de idade. Aprendamos com as crianças, suas espontaneidades e seus desapegos às categorias. Ou seja, apenas sejamos felizes.

<3

pedro e maria
Pedrinho e Mariazinha: que essa infância seja de inspirações eternas!

Posição do movimento negro com relação à redução da idade penal de 18 para 16 anos

Por Nilma Bentes

(em mensagem escrita em bom e escuro pretuguês e enviada por e-mail aos grupos negros)

“Olá afro-negras-pessoas: saúde!

Estive ontem – só na parte da manhã -, em uma atividade no Emaús (encontro sobre segurança pública, Direitos humanos e Movimento Sociais) e soube que existem algumas pessoas de  movimentos sociais e do sistema educacional, que vem tomando posições a favor da redução da maioridade penal, motivadas (tudo indica) , pelos discursos de programas de TVs do tipo Datena, Marcelo Rezende e os semelhantes a nível local. A maioria de nós sabe que essa medida afetará sobretudo a população negra e toda a que mora em bairros chamados de ´periferia´ e que continua longe de receber tratamento igualitário em nossa sociedade. Ou seja, quem primeiro viola os direitos é o próprio estado que não cria condições adequadas (educação, saúde, falta de creches, espaços esportivos e de lazer saudáveis) para uma coesão de famílias da camada de baixa renda. Soube lá nesse evento que só  na região metropolitana de Belém existem 3 (três) milícias (grupo de pessoas que formam uma tropa ilegal e que procuram ameaçar e matar pessoas e que geralmente são pagas por gente da classe dominante ou empresarial). Essa redução da idade penal não afetará os adolescentes brancos e ricos – inclui aqueles que bebem, fumam maconha, cheiram pó e usam outras drogas que se reúnem, muitas vezes  em postos de gasolina e em lugares reservados a eles por eles mesmos.

Entre os interessados na redução da maioridade penal (dá para saber porque querem reduzir só a idade penal e não para outras questões?) estão  grupos empresariais que querem privatizar os presídios (ou seja, que as cadeias deixem de ser de responsabilidade do Estado e passem a ser administradas por empresas que visam lucro,  pois como as atuais cadeias estão superlotadas, com o aumento de prisioneiros (que serão os menores de 18 anos; se passar essa  lei), o estado poderá ser obrigado a ´terceirizar´ (privatizar) a administração dos presídios.

De quanto será o aumento de mães (chefe de famílias, inclusive) que estão na pobreza (camada de baixa renda) e que trabalham o dia todo,  passarão a chorar mais por verem seus  filhos e filhas  na prisão?

Quem é mesmo responsável pelo tráfico de drogas? Acho que a maioria dos ativistas sociais sabem que pessoas de baixa renda não tem capital para comprar drogas para revenda ; a maioria dos envolvidos com drogas e que estão na pobreza,  são usados mais para distribuir e se viciar. É dever do estado tratar duramente dessa questão do tráfico.

Por outro lado, quem já visitou um presídio ou celas de delegacias sabe que as pessoas são tratadas como animal enjaulado (aliás, muitos animais são tratados melhor que gente). Muitas pessoas que estiveram presas saem da prisão sem ter condições de manter longe do crime (sem trabalho ou qualquer apoio para não voltar ao crime; tem casos de presos que foram soltos mas moravam em outro município, que não recebem qualquer grana nem para comprar passagem para voltar a  seu município ou para comer logo no dia que são soltos. E aí?

Pois é; como diz a gíria, ´o buraco é mais a abaixo´, ou seja, não é reduzindo a maioridade que o problema vai ser resolvido. É  verdade que muitos adolescentes (e até crianças) sabem o que “ muitas coisas não se deve fazer”  mas a deficiência na socialização, na coesão da família (e outros motivos),  faz com que muitos jovens se agrupem em ´gangues´,   para fazer coisas que não fariam se estivessem sozinhos.

É bom lembrar que quando a gente entra nos grandes ´shoppings´ , por exemplo, logo se vê que as desigualdades sócio-raciais são enormes : as pessoas que trabalham nas lojas, geralmente,  são todas brancas (geralmente só na seguranças e na limpeza se vê pessoas negras) e neles  tem vitrines com coisas que os que estão na  pobreza só podem ´olhar´ e não comprar). Mas mesmo assim os anúncios nas TVs estimulam todo mundo a consumir, consumir, consumir e dizem  que todas pessoas podem ter o que desejam;  que não existe racismo;  que existe liberdade e falam outras ´enganações´ .

Ora, se adulto que é adulto e foi até bem educado, ´faz besteira´ até à velhice,  imaginem jovens de 16 anos. Os adultos que querem a ´redução´ deviam tentar se lembrar de como eram quanto tinham 16 anos  (sabe-se até que tem uns políticos que cheiravam pó, outros fumavam maconha, quando jovens), ou seja, tentar refletir melhor antes de querer colocar todo mundo no presídio. Está se confirmando  que esse congresso nacional atual (deputados e deputadas; senadores e senadores que fazem as principais leis)  é o mais conservador (retrógrado) dos últimos tempos e que o predomínio são as bancadas dos 4 ´Bs´: bancada do Boi (latifundiários, que não querem a reforma agrária, nem  demarcação das terras indígenas e quilombos); da Bala (muitos ligados às polícias que são contra o desarmamento e muitos estão a serviço  de  empresas que fabricam e vendem armas); da Bola (muitos ex-jogadores ou dirigentes de futebol ou outro esporte, alguns com suas ´armações de resultados´, compra e venda de jogadores para lucro pessoal ); e da Bíblia ; nem todos, mas a maioria desses   ´pastores´ (mesmo na Amazônia, onde quase não tem ´ovelhas´),  que pregam que  ´prosperidade´ (inclui a ´ganância sadia; ´juros cristãos´, etc.),  está ao alcance de todos ;  são os da ala “pequenas igrejas; grandes negócios”, outros são dos que acham que “só nos  grandiosos templos  o Espírito Santo se apresentará”  e ainda outros, que acham que “ Deus é surdo porque fazem suas pregações  aos gritos”, sendo que quase  todas acham que só elas (alas) sabem da ´verdade sagrada´ e desrespeitam as outras religiões, sobretudo, as de matrizes africana e afro-indígenas.

Além dessa ala dos ´4 Bs ´ existem mais gente  retrógradas, a maioria apoiada pela grande mídia (grandes redes TVs e canais de TVs cristãs e evangélicas, jornais, revistas e) que tem interesses contrários à construção da equidade e querem eliminar algumas conquistas legais alcançadas com muito esforço e impedir avanços, sobretudo a causas como a nossa – igualdade/equidade racial.

Juro que quando iniciei esta mensagem não sabia que ela sairia tão longa, mas confesso que fiquei preocupada com o que ouvi ontem no Emaús, e com receio que dentre os ativistas dessas esteja alguém que queira ´cuspir pra cima´ e apoiar a ideia de redução da maioridade penal.

Parece que dessa vez todas as organizações sociais vão ter mesmo que se unir (há muita divergência, ciumeiras, incompreensões  entre movimentos/organizações e outros setores interessados na construção da democracia plena) , pois as forças – sobretudo da chamada ´direita´-, apoiada pela grande mídia,  quer estraçalhar com as poucas conquistas que foram alcançadas a partis da Constituição Federal de 1988 (uns setores falam até em voltar à Ditadura Militar; isso é absurdo, pois quem viveu esse tempo sabe que é terrível). Parece que vamos ter de ativar mais ainda nosso ´estoque de coragem´ para enfrentar esse novo ataque dos ´neoliberais´( que querem sempre  a redução do Estado e a ampliação dos espaços de empresas privadas, inclusive multi e transnacionais).

É preciso muita atenção pois toda vez que os da camada de alta renda (que estão na riqueza) gostam de algumas iniciativas do congresso nacional/Assembleias Legislativas/Câmaras Municipais, geralmente  essas irão prejudicar a população de baixa renda, onde está concentrada a população negra – é ´nois na foto´.

Por favor, quem conseguiu ler até aqui, leia  também a nota do movimento negro nacional  a seguir ( quando esta versão foi publicada a AMNB e outras ainda não tinham se pronunciado; mas já assinaram) e o anexo.”

Manifesto oficial do movimento negro brasileiro sobre a PEC 171/93
Manifesto oficial do movimento negro brasileiro sobre a PEC 171/93

Drops I

Dias de falar no tempo. Temos falado no tempo todos os dias. O tempo resolve? Cura dores? Apaga memórias? É possível otimizar o tempo? Usá-lo a nosso favor?

Talvez … talvez … no dia que aprendermos a respeitar o tempo, qualquer tempo (divino, físico ou astral), independente de fé no acaso ou no sobrenatural, talvez …   soframos menos. O tempo não cabe nessa caixa de tic tac.

Não me vejo, não compro! – A Black Friday em Belém

images

compara quantas vezes pessoas negras estiveram nas capas de tpm e trip

(TPM # 48 / OUTUBRO 2005/imagem retirada da internet em 30/11/2014)

 

Na semana da Black Friday (BF), as Blogueiras Negras (BN) lançaram o seguinte desafio à observação e reflexão: quão negra é essa sexta-feira? No texto, as autoras chamam a atenção para a insistência de o mercado publicitário brasileiro tratar a pessoa negra como mercadoria (como mulher negra publicitária, já morri e ressuscitei n vezes com essa cultura), deixando-nos à margem enquanto decisores e compradores.

A provocação das BN me despertou para dialogar com a análise, também analisando os anúncios de BF em Belém. Dando continuidade ao teste do pescoço, a metodologia utilizada pelas meninas foi a seguinte: escolher marcas diversas e analisar quantas pessoas negras apareciam a cada 500 pessoas brancas em suas fan pages no Facebook, uma análise quantitativa de proporção entre uma etnia e outra. Para o desdobramento que dei ao mapeamento, eu mapeei empresas belenenses, ou com grande aproximação com o público local, que estavam anunciando ofertas na BF, mas reduzi meu quantitativo para 100 pessoas. Surgiram as marcas James Brownie e Óticas Pará, mas aí acabei incluindo outras duas que mesmo não anunciando ofertas na BF, me chamaram muita atenção: Drograrias Big Ben e Eubelem.

Antes de imergir na análise, preciso relembrar um episódio que vivenciei em uma sala de aula de graduação de Jornalismo na Universidade Federal do Pará quando, ao discutir sobre discursos midiáticos racistas, mencionei três anúncios da Duloren com mulheres negras nas seguintes representações: presidiária, mãe solteira, favelada. Lógico que ouvi aquele sonoro e habitué: negro vê racismo em tudo. Preciso discordar. Infelizmente nem todas as pessoas negras veem racismo em tudo. Ainda mais com a epidemia Freeman (expressão minha) que se espalhou pelo Brasil. Preciso dizer ainda que nessa mesma ocasião ouvi da professora, de quem eu era monitora, a brilhante sacada sobre o anúncio da presidiária: “mas é porque as negras são a maioria das presidiárias”. Quase pedi um saquinho de vômito daqueles de avião.

Pois bem. O que vi nos anúncios de Black Friday em Belém?

James Brownie: 7% de pessoas negras aparecem nas imagens da fan page da empresa. Das 100 pessoas que identifiquei nas imagens, 93 são brancas e 7 são negras. E estamos falando de uma empresa cujo apelo comercial é a memória negra, um importante ícone negro americano: James Brown. Afinal, estamos falando de chocolate! Nada mais apropriado do que falar de gente “cor de chocolate”, oras bolas! Aham, tá bom, ora me compra um bode!

Óticas Pará: 0% de pessoas negras. A fan page da Ótica Pará é nova, foi iniciada em 4 de setembro desse ano e consegui identificar apenas 36 imagens. Mas … o que dizer sobre a comunicação publicitária da marca belenense? O Pará que essa marca enxerga não anda pelas ruas dos 144 municípios do estado! Olhar as imagens dessa ótica me fez lembrar da história de Jesus Cristo: como pode num lugar com tanto sol e calor, as pessoas serem tão brancas e loiras? Coerência mandou um axé aí!

Drogarias Big Ben: 0% de pessoas negras. Como uma rede que comercializa uma diversidade de tipos de produtos, a empresa reproduz alguns anúncios das marcas que revende, então acontece de em um material ou outro aparecer a Thaís Araújo e a Camila Pitanga (ugh!) em anúncios de cosméticos. Mas nos anúncios próprios, tá puxado, olha! E o mais cômico é o anúncio feito no dia 20 de novembro, puta cretinice publicitária, puta epidemia Freeman! Égua Big Ben, me compra um bode tu também!

Eubelem: 3% de pessoas negras. Decepção é a categoria da marca Eubelem no resultado de minha análise. Em 100 pessoas, vi três pessoas negras (em minha leitura de pessoa negra): Gaby Amarantos, Keyla Gentil (ambas cantoras populares e que estão “na crista da onda” do mainstream fonográfico) e um modelo. Que pena!

Eu nem vou responsabilizar as agências, porque enfim, né? O mercado publicitário local é pasteurizado mermo e ponto (perdendo amizades em 3 2 1 …). Os publicitários negros ganham menos, sim, aqui em Belém. Vivenciei isso e vi outras pessoas iguais a mim passarem pela mesma situação (até em agência com sócio negro). Agora os anunciantes não terem a mínima inteligência mercadológica para a diversidade de clientes … enfim. Não se darem ao trabalho de se questionarem, de reverem suas posturas, de se proporem ao estranhamento e agirem com aquele conhecido pensamento “fora da caixa”? Te contar!

Mas …. é que nós vemos racismo em tudo!

Pra não ser assim tão ranzinza e ingrata, relembremos o período na história do Brasil no qual fizemos tremendo sucesso nos anúncios publicitário impressos em jornais, já tivemos nossos anos de ouro na publicidade nacional. De uns anos pra cá, tem sido cool colocar mulheres e homens negros de cabelos black power em anúncios predominantemente brancos e quase sempre, pra não dizer que não falam das cotas, em novembro surgem alguns outros anúncios com pessoas negras, a tal consciência humana, um dos sintomas predominantes na epidemia Freeman.

Os resultados predominantes de Belém dialogam com os resultados predominantes nas análises que as autoras do mapeamento das BN identificaram. Portanto, me uno à convocação feita pelas meninas: “Convocamos todas as pessoas negras a guardarem esses resultados em suas mentes durante todo o ano e especialmente agora em que a famigerada Sexta-Feira Negra se aproxima. Grite conosco para os quatro ventos – NÃO ME VEJO, NÃO COMPRO!”

Em Belém, NÃO ME VEJO, NÃO COMPRO nas quatro marcas mencionadas nesse texto. Onde não decido, não compro.

(Pra saber mais sobre o assunto é só pesquisar no oráculo, tentei colocar links, mas minha conexão não colabora)