“eu não posso me dar o luxo de lutar apenas uma forma de opressão somente”

O título desse post está entre aspas porque é um trecho do texto “Não há Hierarquias de Opressão”, de Audre Lorde. Audre comentava sobre a impossibilidade de ela existir em partes: “Como uma Negra, lésbica, feminista, socialista, poeta, mãe de duas crianças incluindo um garoto e membra de um casal interacial”, dizia se sentir o tempo todo como “parte de algum grupo no qual a majoritariedade define como desviante”, por compreender-se como mulher indivisível, Audre também acreditava que o combate às opressões era indivisível.

“E eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles aparecerem pra destruir você.”

(Audre Lorde)

Bom, são tempos difíceis para se fazer escolhas sobre que “pautas” são importantes para combater. Eu denuncio o racismo da polícia militar no Brasil, da mesma forma que denuncio o machismo da dita corporação. Não é possível combater uma opressão por vez. Uma viatura segue uma jovem negra na rua. Qual a intenção dos ocupantes da viatura? Pegá-la por ser preta e suspeita ou por ser mulher e ser alvo fácil de assédio sexual? Eu como testemunha da cena vou denunciar qual crime da PM primeiro? E se ao mesmo tempo uma mulher branca desvia dessa jovem negra na rua porque sua aparência, seus cabelos em dreads, levantam suspeita? Eu devo ignorar a atitude racista da moça branca porque agora preciso focar em uma só pauta e denunciar apenas a PM? E se a jovem for assaltada e o assaltante ameaça-la de estupro? Devo então me calar porque a denuncia do momento ainda é a PM e eu não posso desvirtuar o foco?

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A cena com a jovem negra é fictícia, mas ao mesmo é real. O racismo e o machismo cravam os corpos das mulheres negras simultaneamente.

Como será que uma mulher negra e lésbica como Audre Lorde, deveria se comportar se de um lado a chamassem de “negra fedida” e do outro de “mulher macho”? Ela deveria escolher qual crime denunciar primeiro? Ou ela seria culpada de acionar ambas discriminações na sociedade?

E a mulher negra, mãe, periférica, que precisa deixar a cria na creche sob os cuidados de monitoras que reproduzem o racismo e o sexismo? Como essa mulher vai escolher que pauta ela vai lidar primeiro na creche? As monitoras cultivam a Barbie como modelo de boneca, ensinam as crianças que rosa e azul tem ligação com gênero e o que o capitalismo é modelo de felicidade. E agora? Qual pauta resolver primeiro? Quem conseguirá estabelecer prioridades de combate e reivindicação?

Eu, enquanto mulher negra, heterossexual, solteira, sem filhos, ao ouvir que mulher branca é pra construir família e mulher negra é pra “curtir um sexo gostoso” (sic), serei capaz de escolher se primeiro denuncio o racismo ou se primeiro denuncio o machismo? Como é possível que eu divida meu corpo, minha existência em categorias e em momentos diferentes eu seja uma ou outra coisa? Como serei negra em dado momento e mulher em outro momento? E quem decide qual opressão deve vir à frente?

A mesma intolerância que uma sociedade eurocentrada como a sociedade brasileira tem com o corpo negro, muitos homens negros tem com as mulheres negras. Mas quando eu denuncio ambas as discriminações, sou acusada por outras mulheres de “desvirtuar o foco” do combate, porque preciso hierarquizar opressões. Uma hora eu combato o genocídio da população negra e nessa hora sou útil, mas deixo de ser útil quando não estou autorizada a combater o genocídio e o machismo ao mesmo tempo, já que alguém determinou que eu devo combater apenas uma discriminação e que eu devo unir forças com aquele que me agride e que agride outras mulheres negras, perseguindo, desrespeitando, gritando, aterrorizando.

Lélia Gonzalez, intelectual negra de Minas Gerais, também faz chama a uma reflexão semelhante no texto “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”. Logo depois da epígrafe, ela comenta que “O lugar que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular”. Então enquanto o homem negro tem certa imagem construída pelo racismo, sendo essa imagem a de baderneiro, bandido e boêmio, a imagem construída sobre a  mulher negra, pelo racismo e pelo sexismo, é de que somos barraqueiras, extremamente fortes e prontas para alimentar os homens (de sexo e de leite).

Então imaginem os efeitos nefastos em nós quando homens negros presenciam mulheres negras sendo agredidas pela polícia militar e não dizem nada, não fazem nada e seguem seus batuques, como escolher que opressão eu devo combater primeiro nesse cenário? Se a polícia militar carrega uma mulher negra no camburão da viatura, e nenhum homem negro presente enfrenta essa polícia em defesa dessa juventude, que combate ao genocídio negro estão fazendo esses homens? E eu devo denunciar apenas o racismo e o machismo da pm, mas ignorar o machismo dos homens negros que são coniventes com a violência policial? Mulheres negras estão ao lado desses homens no combate, mas o contrário também não é possível? Ou o melhor que podem fazer é nos continuar “mandando se fuder quando quiser”, como muito bem reiterou um deles em meu perfil no Facebook?

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