O GENOCÍDIO NEGRO NÃO É SIMBÓLICO!

Carol "Resistência" Pabiq. Foto: Thiane Neves Barros.
Carol “Resistência” Pabiq. Foto: Thiane Neves Barros.

 

Ontem, 13 de março de 2016, enquanto centenas de pessoas de classe média e majoritariamente brancas, manifestavam em Belém, sob a proteção da Polícia Militar do Pará, criança negra era arrastada de sua mãe em via pública, a luz do dia e sob os olhares coniventes dessa gente que manifestava ~ por um brasil melhor.

Enquanto isso, mais uma mulher negra, pobre, aliás, pobre não, na linha da miséria mesmo, era violentamente agredida pela Polícia Militar do Pará a pedido do pai das crianças. Ele aos 50 anos, homem robusto e com a vida financeira estável. Ela, negra, com 33 anos, artesã e dona de um corpo tão miúdo que eu mesma demorei a crer que ela seja apenas cinco anos mais nova do que eu. Ele nunca pagou pensão para as crianças, mas quem foi julgada como criminosa foi ela que, agarrada em suas crianças, clamava que não as levassem. Acusação: o pai já havia avisado que, caso a mãe estivesse com as crianças trabalhando na praça (vendendo artesanato), ele chamaria a polícia pra tirar as crianças dela.

Foi o que ocorreu. Domingo de manhã, a praça da república cheia de outras crianças com familiares, inclusive mães que trabalham durante a semana e tem a oportunidade de passear com suas crias aos domingos, essa moça (cuja identidade manterei sob sigilo) que consegue vender melhor aos domingos, trabalhava (e sim, com as crianças, já que ninguém pode ficar com as crianças, nem o pai denunciante) justamente pra garantir alguma possibilidade de sustento às crianças durante as semana.

Por sorte, dessa vez ela não estava sozinha.

Acontecia no Bar do Parque uma batucada e nela estavam algumas jovens negras que acudiram a jovem mãe agredida pela PM. Foi quando, em demonstração máxima de poder, controle, racismo e machismo, os policiais dispararam agressões físicas e morais às garotas. Socos no rosto, corpos arrastados, empurrões, armas em riste, xingamentos, arranhões. TODAS MULHERES. Jovens, Negras. Pobres. TODAS.

Foi quando uma delas, ao abraçar as crianças e a mãe, foi acusada de impedir o trabalho da polícia e acusada de ser uma ameaça aos policiais. Um corpo magro e armado apenas de resistência. E então foi arrastada pra dentro do camburão e levada à delegacia já com o veredito final dado pelos policiais: culpada!

Daí em diante o show de ódio foi acompanhado de um deplorável desconhecimento da lei, soberba e a certeza da impunidade e proteção do estado ao oficio de arrastar corpos negros pelas ruas. Vanessa foi torturada emocionalmente durante as cerca de 5 horas que ficou em custódia da polícia. Queriam levá-la a todo custo para o presídio. Sabem porque não levaram? Não conseguiram enquadrar Vanessa em nenhum tipo de crime. Apesar de todos os esforços pela manutenção da eugenia.

Só que dessa vez a rede estava também em riste. Mulheres negras em rede e nossos aliados (em sua maioria os homens negros gays e bissexuais) a postos, igualmente. Mexemos uma estrutura inteira nessa rede e com a parceria incansável de advogadas e advogados, Vanessa foi liberada ontem mesmo.

Não conseguimos impedir que as crianças fossem levadas da mãe. E essa mulher lutou bravamente, como lutam as mulheres negras. Daquele corpo miúdo saiu tanta raiva acumulada, tanta vontade de resistência, tanta capacidade de luta e ao mesmo tempo tanto amor por aquelas crianças, um grito tão alto de pedido de ajuda que arrisco dizer que aquele corpo nunca mais vai silenciar. E lutaremos até saber que ela e suas crianças estarão a salvo e com alguma saúde.

Quando vem os flashes da mãozinha da filha dela grudada no vidro da janela da viatura, é impossível não chorar tudo de novo. ERAM APENAS CRIANÇAS! E mais uma mulher culpada. ,

A infância negra pede socorro!
A juventude negra pede socorro!
Mulheres negras pedem socorro!

E se a militância negra não estiver atenta, nós continuaremos perdendo nossa juventude. Seja física ou emocionalmente. Não podemos nos dar ao “luxo” de abrir mão de nossas crianças, de nossa juventude! Homens negros, esta pauta é sua também! Mulheres negras morrem em combate aos seus lados desde sempre. Se nem essa pauta for capaz de nos unir enquanto movimento, o Estado brasileiro continuará bem sucedido em sua eugenia. Só unidas e unidos poderemos mostrar a esse Estado que ele vai se arrepender de levantar a mão pra gente!

(se por ventura esqueci de marcar alguém que estava lá, me perdoem antecipadamente, a cabeça ainda não voltou pro lugar)

Laroyê Exu!

‪#‎MulheresNegrasemRede‬ ‪#‎JuventudeNegraViva‬ ‪#‎Infâncianegraviva‬

Esse texto foi originalmente publicado em meu perfil no Facebook e mantive inclusive os erros ortográficos e de digitação, reflexos do momento.

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