Nem macacos, nem Maju: hashtag não combate o racismo.

Eu sei que muita gente não vai ler esse post até o final, porque as pessoas querem ver beleza e infelizmente não existe beleza no racismo. A quem se predispor, seguem minhas considerações sobre “este caso recente de racismo no Brasil”. Quem quiser debater – DEBATER – a gente tamos aí. ;)

Pois bem, a Maju virou notícia APENAS porque o ataque foi na página do Jornal Nacional. Se tivesse sido na rua – como acontece diariamente – ou no Facebook dela – como acontece com a Cristiane Damacena, por exemplo – a TV Globo JAMAIS teria dado espaço para a voz de Maju fazer ecoar a palavra PRECONCEITO. E vejam, em momento algum ela deu nome ao crime que fora praticado contra ela. Esse crime tem nome, chama-se RACISMO (Lei 7.716/89). Mas como para Ali Kamel (diretor de jornalismo da emissora) não existe racismo no Brasil, a Maju não mencionou o tal crime.

Curiosamente a Globo não deu a mesma importância quando a Angélica (que participou do BBB de 2015) também foi insultada, ofendida e atacada por racistas. Sabem o que a emissora fez? Silenciou Angélica. Ninguém colocou # pra defendê-la, pois Angélica é uma indignada que não usa de eufemismos pra manifestar sua dor. É barraqueira, como dizem.

Maju, com todo seu gingado – típico de mulheres inteligentes afirmam os machistas – encarou a coisa toda com altivez, sorriso e – de novo na Globo – com suavidade. E creiam em mim, racismo nunca será suave, assim como nada no JN é dito sem o aval de Ali Kamel, portanto, aquela cena – de novo romantizada – foi construída. O texto de Maju foi editado. Mas Ali Kamel manja tanto dos paranauê (roteiro, emoção, envolvimento … drama), que ele ATÉ permitiu que Maju falasse de seu pai militante. Portanto, empoderada como é Maju, certamente ela NUNCA teria abdicado de dar nome aos bois, não foi apenas preconceito, foi RACISMO.

E o que houve com Maju só é possível porque há uma estrutura que banca o racismo no dia a dia, com o qual ninguém se indigna, ninguém percebe, nem faz hashtag. É o racismo dito em piada, é o constrangimento diário, o “conta até dez” imposto a quem sofre racismo.

Apenas hashtag não combate o racismo, não prende racista. O que dá jeito em racismo é denúncia, aplicação da lei e cadeia.

Vocês sabem a repercussão da expressão “somostodosmaju”? Oito páginas, um evento com 16 mil pessoas convidadas e 2.200 confirmações, um grupo público com 175  membros, pessoas que trocaram seus nomes e acrescentaram #somostodosmaju em seus perfis. Monte de gente colocou a foto de Maju no lugar da sua. Mais de 50mil menções de #somostodosmaju (e suas variações) no Google. Mas quantas dessas pessoas são a favor das cotas raciais? Quantas acham que todo preto é suspeito de ser bandido ou acham que fulano tem o pé na senzala porque anda com gente preta? Quantas dessas pessoas já não mudaram de direção ou puxaram a bolsa mais pra si quando viram um homem negro vindo em sua direção? Quantas dessas pessoas não acham que mulher negra trabalha apenas como doméstica? Quantas dessas pessoas acham Maju exótica? Quantas pessoas a acham “uma negra bonita”?

Quantas dessas pessoas “chutam que é macumba”?

E quantas acreditam piamente em racismo reverso? Ou acusam as pessoas negras de “serem os primeiros a terem preconceitos”? Ou diz que o movimento negro é radical? Falta coerência, gente. A solidariedade é importante, mas não é de bom tom protagonizar uma cena que não é sua. Nem somos todos macacos, nem somos todos Maju. Ainda que eu entenda a gentileza dessas centenas de pessoas em demonstrar indignação por Maju.

Na página do Globo Esporte, por exemplo, uma ilustração mostra um grupo de pessoas a segurar uma faixa com a # criada, mas entre essas pessoas, apenas 1 mulher negra (que seria a própria Maju). Simbólico, sim? Maju não tem outras mulheres negras como pares. Muito simples.

No Catraca Livre a notícia é “Equipe do Jornal Nacional lança campanha contra o preconceito #somostodosmaju”. Se há uma empresa que ensina sobre comunicação é a Globo. Bestas nem nada, vão capitalizar o assunto. Quanto de patrocínio foi vendido pra essa campanha? Pra quem ainda não sabe, ano passado a Globo atacou e acusou as Blogueiras Negras de imbecis, burras, iletradas, vitimistas … porque nós não rimos de Sexo e as Nega. Mas agora a Globo é Maju desde criancinha. Só não temos representantes negras como apresentadoras e líderes, apenas na cozinha da Ana Maria Braga e das telenovelas. Nos comerciais publicitários nós só somos representadas quando é sobre Bolsa Família ou sobre projetos assistencialistas do Luciano Huck e pares. Bonner nunca será Maju. Renata Vasconcelos nunca será Maju.

Já falei pra vocês sobre racismo? Tem gente homenageando Maju com pintura preta na cara e isso também tem nome: blackface. É racismo também. E sabem por que as pessoas se acham o máximo se pintando de preto e tirando fotografia em apoio à Maju? Porque estas mesmas pessoas nunca leram uma linha sequer sobre o que temos escrito por todos esses anos.

Vejo as pessoas elogiarem Maju. “É linda!”. É competente”. “É simpática”. Eu concordo com tudo isso, Maju é diva mesmo! Mas é por isso que ela recebeu tanto apoio? Porque ela sorri ao invés de chorar e o que querem da mulher negra é que apenas sambe, ria e distribua charme, sem reclamar, sem gritar, sem  expor sua dor? Sabe aquelas frases do tipo “tão bonito o rosto da fulana ou do fulano, pena que é gorda/o”, “fulana é tão bonita e tão jovem e foi assassinada”, “fulano é tão bonito, mas é gay”, “fulano é pobre, mas não é bandido” … etc etc etc. Os elogios à Maju caem nesse fosso bem aí. Apenas para reiterar: Maju merece todos os elogios. Absolutamente todos! Mas não merece que a apoiem apenas por isso. Ela merece ser apoiada tanto quanto estudantes negros cotistas merecem e precisam ser apoiados. E tanto quanto nossas lutas por políticas de reparação à segregação racial vivenciada pelo povo negro no Brasil.

Teve um rapaz que escreveu “Homofobia na pauta diária e, agora, racismo… Brasil, você consegue ser mais ridículo que o 7×1”. Ênfase para “e, agora, racismo …” E eu me pergunto: cadê as aulas de história dessas escolas? Arrancaram as páginas que contam dos quase 400 anos de escravidão negra? Gente … gente, gente … esta Nação foi construída apoiando e praticando o racismo, amores meus. Vocês querem ser legais? Reconheçam isso. Pura e simplesmente. Não precisa enfiar uma melancia na cabeça pra dizer que se reconheceu racista, apenas reconheça. Vi também um jogador de futebol negro que escreveu “2015 e ainda tem imbecil no mundo pra ser racista?”, mas esse mesmo moço namora uma moça branca, loira … não uma mulher negra e tals … ah, mas o amor não tem cor!

O Brasil está cheio de Majus e de meninas e mulheres negras que sonham em ser Maju, mas que nunca serão. São mulheres negras competentes, como qualquer pessoa, mas que são interditadas como qualquer pessoa … negra.

Mas o que eu queria dizer mesmo é que o peso de ser qualquer Maju não é hashtag de Facebook. Sejamos mais honestes conosco. Sejamos melhores do que a Globo, pelo menos.

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