365 vezes Cláudia

Há 365 dias a morte de Cláudia me machuca e revira. Eu poderia contar como me senti ao longo dos últimos 365 dias, dia a dia, desde quando ela entrou em minha vida pra nunca mais sair.

Falar de Cláudia nunca é pouco ou demais. É apenas necessário. Eu a conheci na noite de 17 de março de 2014. Nunca mais fui a mesma. Desde então penso nela quase diariamente como uma pessoa de mim, uma irmã mais velha, talvez, ou uma amiga muito querida ou mesmo uma colega com quem cresci na mesma rua. Cláudia me transformou. Foi graças a ela que pude conhecer e me conectar a outras mulheres negras e suas histórias de amores e dores. Foi por causa de Cláudia.

A diáspora nos trouxe essa dispersão. Mas não nos perdemos. Quem inventou o genocídio negro não imaginou, talvez, a dimensão de sua competência. Que a dor que causou às pessoas negras não acabaria em uma ou duas gerações. Também não imaginou que um dia nos reencontraríamos movidos pela identificação de cada pessoa que descende daqueles que foram obrigados a atravessar o Atlântico a partir de diversos pontos do continente africano.

É assim que me sinto por Cláudia. Me sinto ligada a ela por uma afetividade que ultrapassa a barreira da convivência. Não precisei estar com ela para senti-la. Nos conhecemos pela televisão. E olha que eu nem vejo tv, não ouço rádio, não leio jornal. Ainda assim, a força dessa ancestralidade me colocou à frente da tv naquela noite do dia 17 de março de 2014 e me deu uma dose excessiva de choque. Lembro como se fosse hoje: quando a matéria foi anunciada, fechei os olhos, não vi o vídeo exibido pelo telejornal, eu já sabia que uma irmã tinha sido novamente acorrentada e arrastada.

Dentro do meu peito o peso dos séculos. A dor das mulheres negras responsáveis por eu estar aqui e de quem sequer sei os nomes. E tentaram fazer com que eu não conhecesse Cláudia da mesma forma, tiraram-lhe o nome e a humanidade. Assim como anunciavam mulheres negras escravizadas como se elas não existissem por si mesmas, tentaram que Cláudia fosse apenas mais uma mulher negra anunciada, cujo corpo exposto e arrastado valia menos do que um banco traseiro da viatura da PM.

Cláudia me atravessou. Até hoje, quando ouço sirene de viatura, fico tensa e busco enxergar o banco de trás e o porta-malas. Quantos corpos negros são carregados nessa resistente cultura de navio negreiro? São 365 dias com e sem Cláudia. Mais de cinco séculos de genocídio negro. E, pra completar, somos acusadxs de vitimismo. Quem dera que fosse apenas um exagero nosso, quem dera!

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Por trás do rosto de Cláudia descobri o meu próprio rosto.

Importa dizer que eu não me descobri Cláudia sozinha, Brunas,Suhs,Vandas, Julyannas, Nazarés e Simones … e outras tantas negras se descobriram junto comigo. Alguma de nós será a próxima Cláudia? É preciso que esse mundo reflita sobre o bem viver da mulher negra para que não sejamos apenas dores, nosso bem viver precisa ser mais forte e maior do que aquilo que nos enfraquece.

A cada pessoa negra morta por falta de bem viver, nossos tambores ressoam ensurdecedores.

Cláudia estará presente sempre!

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