Não me vejo, não compro! – A Black Friday em Belém

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compara quantas vezes pessoas negras estiveram nas capas de tpm e trip

(TPM # 48 / OUTUBRO 2005/imagem retirada da internet em 30/11/2014)

 

Na semana da Black Friday (BF), as Blogueiras Negras (BN) lançaram o seguinte desafio à observação e reflexão: quão negra é essa sexta-feira? No texto, as autoras chamam a atenção para a insistência de o mercado publicitário brasileiro tratar a pessoa negra como mercadoria (como mulher negra publicitária, já morri e ressuscitei n vezes com essa cultura), deixando-nos à margem enquanto decisores e compradores.

A provocação das BN me despertou para dialogar com a análise, também analisando os anúncios de BF em Belém. Dando continuidade ao teste do pescoço, a metodologia utilizada pelas meninas foi a seguinte: escolher marcas diversas e analisar quantas pessoas negras apareciam a cada 500 pessoas brancas em suas fan pages no Facebook, uma análise quantitativa de proporção entre uma etnia e outra. Para o desdobramento que dei ao mapeamento, eu mapeei empresas belenenses, ou com grande aproximação com o público local, que estavam anunciando ofertas na BF, mas reduzi meu quantitativo para 100 pessoas. Surgiram as marcas James Brownie e Óticas Pará, mas aí acabei incluindo outras duas que mesmo não anunciando ofertas na BF, me chamaram muita atenção: Drograrias Big Ben e Eubelem.

Antes de imergir na análise, preciso relembrar um episódio que vivenciei em uma sala de aula de graduação de Jornalismo na Universidade Federal do Pará quando, ao discutir sobre discursos midiáticos racistas, mencionei três anúncios da Duloren com mulheres negras nas seguintes representações: presidiária, mãe solteira, favelada. Lógico que ouvi aquele sonoro e habitué: negro vê racismo em tudo. Preciso discordar. Infelizmente nem todas as pessoas negras veem racismo em tudo. Ainda mais com a epidemia Freeman (expressão minha) que se espalhou pelo Brasil. Preciso dizer ainda que nessa mesma ocasião ouvi da professora, de quem eu era monitora, a brilhante sacada sobre o anúncio da presidiária: “mas é porque as negras são a maioria das presidiárias”. Quase pedi um saquinho de vômito daqueles de avião.

Pois bem. O que vi nos anúncios de Black Friday em Belém?

James Brownie: 7% de pessoas negras aparecem nas imagens da fan page da empresa. Das 100 pessoas que identifiquei nas imagens, 93 são brancas e 7 são negras. E estamos falando de uma empresa cujo apelo comercial é a memória negra, um importante ícone negro americano: James Brown. Afinal, estamos falando de chocolate! Nada mais apropriado do que falar de gente “cor de chocolate”, oras bolas! Aham, tá bom, ora me compra um bode!

Óticas Pará: 0% de pessoas negras. A fan page da Ótica Pará é nova, foi iniciada em 4 de setembro desse ano e consegui identificar apenas 36 imagens. Mas … o que dizer sobre a comunicação publicitária da marca belenense? O Pará que essa marca enxerga não anda pelas ruas dos 144 municípios do estado! Olhar as imagens dessa ótica me fez lembrar da história de Jesus Cristo: como pode num lugar com tanto sol e calor, as pessoas serem tão brancas e loiras? Coerência mandou um axé aí!

Drogarias Big Ben: 0% de pessoas negras. Como uma rede que comercializa uma diversidade de tipos de produtos, a empresa reproduz alguns anúncios das marcas que revende, então acontece de em um material ou outro aparecer a Thaís Araújo e a Camila Pitanga (ugh!) em anúncios de cosméticos. Mas nos anúncios próprios, tá puxado, olha! E o mais cômico é o anúncio feito no dia 20 de novembro, puta cretinice publicitária, puta epidemia Freeman! Égua Big Ben, me compra um bode tu também!

Eubelem: 3% de pessoas negras. Decepção é a categoria da marca Eubelem no resultado de minha análise. Em 100 pessoas, vi três pessoas negras (em minha leitura de pessoa negra): Gaby Amarantos, Keyla Gentil (ambas cantoras populares e que estão “na crista da onda” do mainstream fonográfico) e um modelo. Que pena!

Eu nem vou responsabilizar as agências, porque enfim, né? O mercado publicitário local é pasteurizado mermo e ponto (perdendo amizades em 3 2 1 …). Os publicitários negros ganham menos, sim, aqui em Belém. Vivenciei isso e vi outras pessoas iguais a mim passarem pela mesma situação (até em agência com sócio negro). Agora os anunciantes não terem a mínima inteligência mercadológica para a diversidade de clientes … enfim. Não se darem ao trabalho de se questionarem, de reverem suas posturas, de se proporem ao estranhamento e agirem com aquele conhecido pensamento “fora da caixa”? Te contar!

Mas …. é que nós vemos racismo em tudo!

Pra não ser assim tão ranzinza e ingrata, relembremos o período na história do Brasil no qual fizemos tremendo sucesso nos anúncios publicitário impressos em jornais, já tivemos nossos anos de ouro na publicidade nacional. De uns anos pra cá, tem sido cool colocar mulheres e homens negros de cabelos black power em anúncios predominantemente brancos e quase sempre, pra não dizer que não falam das cotas, em novembro surgem alguns outros anúncios com pessoas negras, a tal consciência humana, um dos sintomas predominantes na epidemia Freeman.

Os resultados predominantes de Belém dialogam com os resultados predominantes nas análises que as autoras do mapeamento das BN identificaram. Portanto, me uno à convocação feita pelas meninas: “Convocamos todas as pessoas negras a guardarem esses resultados em suas mentes durante todo o ano e especialmente agora em que a famigerada Sexta-Feira Negra se aproxima. Grite conosco para os quatro ventos – NÃO ME VEJO, NÃO COMPRO!”

Em Belém, NÃO ME VEJO, NÃO COMPRO nas quatro marcas mencionadas nesse texto. Onde não decido, não compro.

(Pra saber mais sobre o assunto é só pesquisar no oráculo, tentei colocar links, mas minha conexão não colabora)

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