Floresta Nacional de Caxiuanã: rio, mata, encruzilhada

Dona Josefina e seu tímido sorriso.
Dona Josefina e seu tímido sorriso (clique na imagem para vê-la ampliada).

Dia 20 de outubro de 2014. Estamos a caminho de Belém. Já são oito dias navegando. Belém – Caxiuanã – Belém. Eu ansiava por essa rota há meses. Tinha ideia do que encontraria em Caxiuanã e do impacto emocional que eu teria naqueles dias de imersão na Floresta Nacional, na sede da Estação Científica Ferreira Penna. Mas o encontro com Dona Josefina, matriarca da Vila de Santa Cruz, comunidade do município de Melgaço, no Marajó (Pará), foi além do que eu projetei.

Sabia do meu encontro com as crianças. Que elas me esperavam. Meu coração as desejava sem nunca tê-las visto, até então.  Eu sabia que seria difícil voltar pra Belém depois do que elas me provocariam. Eu sabia que me sentiria em casa e que meu banzo amenizaria. Cinco dias me fariam revirar por dentro. Saí de Belém avisando que eu não voltaria e que, caso voltasse, as traria comigo.

Chegamos à Estação às 2:30h da manhã do dia 15 de outubro. Foram mais de 30 horas navegando. Saímos de Belém pelo rio Guamá, cruzamos a Baía do Guajará, rio Pará, Estreito de Breves, trocamos de barco em Breves, passamos por Portel e Melgaço, entramos no rio Anapu, Baía do Pacajá e, por fim, no rio Curuá. Os barcos com as comunidades começaram a chegar na tarde do mesmo dia.

Eram crianças, adolescentes, educadores chegando com seus gritos de paz, cartazes, sorrisos, abraços e afagos, para participarem da programação das oficinas educativas e das atividades esportivas na VI Olimpíada de Ciências na Flona de Caxiuanã. Algumas levaram as mesmas 24 horas que nós, só que vindos de localidades da “vizinhança” da Estação. E chegaram cheias de entrega e disposição, mais do que timidez. Sem distinção, aconchegam quem já é de casa e quem vem a primeira vez. Dez escolas, 165 crianças e adolescentes.

Avistei dona Josefina de longe. Senhorinha miúda, negra, de cabeleira completamente branca. Lembrei de vovó Ondina, mãe de mamãe, uma herdeira de indígenas vinda do Maranhão pro Pará. Paixão à primeira vista. Imediatamente procurei motivos para me aproximar dela. Dei a sorte de ter as crianças para abrirem o caminho e consegui alcança-la com a desculpa de vê-la ensinando a molecada a fazer fogo na lenha. Não deu tempo de assistir o ensinamento, mas ganhei a chance da prosa simples e do riso fácil. Descobri que ela tem fogão a gás, mas como forma de economizar, sua filha também cultiva o hábito do fogão a lenha.

Daí em diante meu coração fez festa. Dona Josefina Valente da Costa tem 77 anos, sete filhos e mora na Vila de Santa Cruz “a vida toda”, segundo ela, mas na prática mudou pra lá quando mocinha. Casou e nunca mais saiu da comunidade. Não conhece Belém, mal conhece Melgaço e Breves. Depois do falecimento de seus sogros e de seu marido, dona Josefina é a pessoa mais velha da família.

A Vila de Santa Cruz é ocupada por oito casas. Pouco mais de 50 pessoas. E todas com relação consanguínea. Filhas, filhos, sobrinhas e sobrinhos, netas e netos. Todo mundo é parente de Dona Josefina. Sua neta, Denise, de 15 anos, estava participando das Olimpíadas. Ao que comentei sobre sua beleza, dona Josefina riu sem jeito e me disse “ah, nem gosto de me mostrar a feiura”. Ela sabe que a mãe veio do Piauí, mas não lembra muito bem da fisionomia dela, então não sabe se parece com ela ou com o pai. Como tantas, não sabe quem é o pai, pois “ele era de fora”.

Cheguei à Vila para registrar a interação dos alunos da oficina de Fotografia e Sustentabilidade. Quinze minutos de rabeta distanciam a Estação da Vila. A comunidade é evangélica, fundaram uma Igreja da Assembleia de Deus em janeiro de 2013, e o pastor é filho da dona Josefina. Não existem grades nas janelas e nas portas de nenhuma casa. Para fazer as refeições, há um refeitório comum, com uma mesa bem grande. Comunidade ribeirinha, com casa de produção de farinha, variada flora, crianças e animais crescendo juntos. Não conhecem engarrafamento, sequestro relâmpago ou ônibus lotado. Vivem da pesca e da produção da farinha. Para estudarem, as crianças são atendidas pelo barco da prefeitura que as leva a uma comunidade maior onde há a escola.

Foram pequenos doze minutos de prosa com Dona Josefina. Oito dias na Estação. Cinco dias com as crianças. O suficiente para saber que a Flona de Caxiuanã tem tudo que eu preciso: rio, mata, encruzilhada. E a sensação de estar em casa.

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