“eu não posso me dar o luxo de lutar apenas uma forma de opressão somente”

O título desse post está entre aspas porque é um trecho do texto “Não há Hierarquias de Opressão”, de Audre Lorde. Audre comentava sobre a impossibilidade de ela existir em partes: “Como uma Negra, lésbica, feminista, socialista, poeta, mãe de duas crianças incluindo um garoto e membra de um casal interacial”, dizia se sentir o tempo todo como “parte de algum grupo no qual a majoritariedade define como desviante”, por compreender-se como mulher indivisível, Audre também acreditava que o combate às opressões era indivisível.

“E eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles aparecerem pra destruir você.”

(Audre Lorde)

Bom, são tempos difíceis para se fazer escolhas sobre que “pautas” são importantes para combater. Eu denuncio o racismo da polícia militar no Brasil, da mesma forma que denuncio o machismo da dita corporação. Não é possível combater uma opressão por vez. Uma viatura segue uma jovem negra na rua. Qual a intenção dos ocupantes da viatura? Pegá-la por ser preta e suspeita ou por ser mulher e ser alvo fácil de assédio sexual? Eu como testemunha da cena vou denunciar qual crime da PM primeiro? E se ao mesmo tempo uma mulher branca desvia dessa jovem negra na rua porque sua aparência, seus cabelos em dreads, levantam suspeita? Eu devo ignorar a atitude racista da moça branca porque agora preciso focar em uma só pauta e denunciar apenas a PM? E se a jovem for assaltada e o assaltante ameaça-la de estupro? Devo então me calar porque a denuncia do momento ainda é a PM e eu não posso desvirtuar o foco?

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A cena com a jovem negra é fictícia, mas ao mesmo é real. O racismo e o machismo cravam os corpos das mulheres negras simultaneamente.

Como será que uma mulher negra e lésbica como Audre Lorde, deveria se comportar se de um lado a chamassem de “negra fedida” e do outro de “mulher macho”? Ela deveria escolher qual crime denunciar primeiro? Ou ela seria culpada de acionar ambas discriminações na sociedade?

E a mulher negra, mãe, periférica, que precisa deixar a cria na creche sob os cuidados de monitoras que reproduzem o racismo e o sexismo? Como essa mulher vai escolher que pauta ela vai lidar primeiro na creche? As monitoras cultivam a Barbie como modelo de boneca, ensinam as crianças que rosa e azul tem ligação com gênero e o que o capitalismo é modelo de felicidade. E agora? Qual pauta resolver primeiro? Quem conseguirá estabelecer prioridades de combate e reivindicação?

Eu, enquanto mulher negra, heterossexual, solteira, sem filhos, ao ouvir que mulher branca é pra construir família e mulher negra é pra “curtir um sexo gostoso” (sic), serei capaz de escolher se primeiro denuncio o racismo ou se primeiro denuncio o machismo? Como é possível que eu divida meu corpo, minha existência em categorias e em momentos diferentes eu seja uma ou outra coisa? Como serei negra em dado momento e mulher em outro momento? E quem decide qual opressão deve vir à frente?

A mesma intolerância que uma sociedade eurocentrada como a sociedade brasileira tem com o corpo negro, muitos homens negros tem com as mulheres negras. Mas quando eu denuncio ambas as discriminações, sou acusada por outras mulheres de “desvirtuar o foco” do combate, porque preciso hierarquizar opressões. Uma hora eu combato o genocídio da população negra e nessa hora sou útil, mas deixo de ser útil quando não estou autorizada a combater o genocídio e o machismo ao mesmo tempo, já que alguém determinou que eu devo combater apenas uma discriminação e que eu devo unir forças com aquele que me agride e que agride outras mulheres negras, perseguindo, desrespeitando, gritando, aterrorizando.

Lélia Gonzalez, intelectual negra de Minas Gerais, também faz chama a uma reflexão semelhante no texto “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”. Logo depois da epígrafe, ela comenta que “O lugar que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular”. Então enquanto o homem negro tem certa imagem construída pelo racismo, sendo essa imagem a de baderneiro, bandido e boêmio, a imagem construída sobre a  mulher negra, pelo racismo e pelo sexismo, é de que somos barraqueiras, extremamente fortes e prontas para alimentar os homens (de sexo e de leite).

Então imaginem os efeitos nefastos em nós quando homens negros presenciam mulheres negras sendo agredidas pela polícia militar e não dizem nada, não fazem nada e seguem seus batuques, como escolher que opressão eu devo combater primeiro nesse cenário? Se a polícia militar carrega uma mulher negra no camburão da viatura, e nenhum homem negro presente enfrenta essa polícia em defesa dessa juventude, que combate ao genocídio negro estão fazendo esses homens? E eu devo denunciar apenas o racismo e o machismo da pm, mas ignorar o machismo dos homens negros que são coniventes com a violência policial? Mulheres negras estão ao lado desses homens no combate, mas o contrário também não é possível? Ou o melhor que podem fazer é nos continuar “mandando se fuder quando quiser”, como muito bem reiterou um deles em meu perfil no Facebook?

O GENOCÍDIO NEGRO NÃO É SIMBÓLICO!

Carol "Resistência" Pabiq. Foto: Thiane Neves Barros.
Carol “Resistência” Pabiq. Foto: Thiane Neves Barros.

 

Ontem, 13 de março de 2016, enquanto centenas de pessoas de classe média e majoritariamente brancas, manifestavam em Belém, sob a proteção da Polícia Militar do Pará, criança negra era arrastada de sua mãe em via pública, a luz do dia e sob os olhares coniventes dessa gente que manifestava ~ por um brasil melhor.

Enquanto isso, mais uma mulher negra, pobre, aliás, pobre não, na linha da miséria mesmo, era violentamente agredida pela Polícia Militar do Pará a pedido do pai das crianças. Ele aos 50 anos, homem robusto e com a vida financeira estável. Ela, negra, com 33 anos, artesã e dona de um corpo tão miúdo que eu mesma demorei a crer que ela seja apenas cinco anos mais nova do que eu. Ele nunca pagou pensão para as crianças, mas quem foi julgada como criminosa foi ela que, agarrada em suas crianças, clamava que não as levassem. Acusação: o pai já havia avisado que, caso a mãe estivesse com as crianças trabalhando na praça (vendendo artesanato), ele chamaria a polícia pra tirar as crianças dela.

Foi o que ocorreu. Domingo de manhã, a praça da república cheia de outras crianças com familiares, inclusive mães que trabalham durante a semana e tem a oportunidade de passear com suas crias aos domingos, essa moça (cuja identidade manterei sob sigilo) que consegue vender melhor aos domingos, trabalhava (e sim, com as crianças, já que ninguém pode ficar com as crianças, nem o pai denunciante) justamente pra garantir alguma possibilidade de sustento às crianças durante as semana.

Por sorte, dessa vez ela não estava sozinha.

Acontecia no Bar do Parque uma batucada e nela estavam algumas jovens negras que acudiram a jovem mãe agredida pela PM. Foi quando, em demonstração máxima de poder, controle, racismo e machismo, os policiais dispararam agressões físicas e morais às garotas. Socos no rosto, corpos arrastados, empurrões, armas em riste, xingamentos, arranhões. TODAS MULHERES. Jovens, Negras. Pobres. TODAS.

Foi quando uma delas, ao abraçar as crianças e a mãe, foi acusada de impedir o trabalho da polícia e acusada de ser uma ameaça aos policiais. Um corpo magro e armado apenas de resistência. E então foi arrastada pra dentro do camburão e levada à delegacia já com o veredito final dado pelos policiais: culpada!

Daí em diante o show de ódio foi acompanhado de um deplorável desconhecimento da lei, soberba e a certeza da impunidade e proteção do estado ao oficio de arrastar corpos negros pelas ruas. Vanessa foi torturada emocionalmente durante as cerca de 5 horas que ficou em custódia da polícia. Queriam levá-la a todo custo para o presídio. Sabem porque não levaram? Não conseguiram enquadrar Vanessa em nenhum tipo de crime. Apesar de todos os esforços pela manutenção da eugenia.

Só que dessa vez a rede estava também em riste. Mulheres negras em rede e nossos aliados (em sua maioria os homens negros gays e bissexuais) a postos, igualmente. Mexemos uma estrutura inteira nessa rede e com a parceria incansável de advogadas e advogados, Vanessa foi liberada ontem mesmo.

Não conseguimos impedir que as crianças fossem levadas da mãe. E essa mulher lutou bravamente, como lutam as mulheres negras. Daquele corpo miúdo saiu tanta raiva acumulada, tanta vontade de resistência, tanta capacidade de luta e ao mesmo tempo tanto amor por aquelas crianças, um grito tão alto de pedido de ajuda que arrisco dizer que aquele corpo nunca mais vai silenciar. E lutaremos até saber que ela e suas crianças estarão a salvo e com alguma saúde.

Quando vem os flashes da mãozinha da filha dela grudada no vidro da janela da viatura, é impossível não chorar tudo de novo. ERAM APENAS CRIANÇAS! E mais uma mulher culpada. ,

A infância negra pede socorro!
A juventude negra pede socorro!
Mulheres negras pedem socorro!

E se a militância negra não estiver atenta, nós continuaremos perdendo nossa juventude. Seja física ou emocionalmente. Não podemos nos dar ao “luxo” de abrir mão de nossas crianças, de nossa juventude! Homens negros, esta pauta é sua também! Mulheres negras morrem em combate aos seus lados desde sempre. Se nem essa pauta for capaz de nos unir enquanto movimento, o Estado brasileiro continuará bem sucedido em sua eugenia. Só unidas e unidos poderemos mostrar a esse Estado que ele vai se arrepender de levantar a mão pra gente!

(se por ventura esqueci de marcar alguém que estava lá, me perdoem antecipadamente, a cabeça ainda não voltou pro lugar)

Laroyê Exu!

‪#‎MulheresNegrasemRede‬ ‪#‎JuventudeNegraViva‬ ‪#‎Infâncianegraviva‬

Esse texto foi originalmente publicado em meu perfil no Facebook e mantive inclusive os erros ortográficos e de digitação, reflexos do momento.

Sobre lugar de fala, direito de fala, socialização para falar. Conjuntura.

Imagem de Gabriel Jardim do blog  Ofensiva Negritude
Imagem de Gabriel Jardim do blog Ofensiva Negritude

Os maiores genocídios da história da “humanidade” são os genocídios dos povos africanos e dos povos das américas, sim? Já duram mais de 5 séculos. Os primeiros foram dizimados em suas próprias terras e aqui “nas terras alheias”, os segundos foram dizimados dentro de suas casas. Em nenhum dos casos puderam pedir abrigo em outros países como forma de fugir do genocídio. Diferente dos povos europeus que desde a colonização europeia nos dois continentes, encontram abrigo ambos.

Esses genocídios acontecem/aconteceram em benefício da supremacia dos povos brancos. O racismo contra as populações indígenas e negras existe porque os povos brancos europeus se julgavam acima de qualquer outra civilização. Dizimaram famílias, culturas, identidades, deslocaram territorialidades, porque os corpos indígenas e negros lhes pertenciam, segundo seu julgamento. Os colonizadores europeus reduziram o mundo às suas verdades, aos seus conceitos, às suas categorias. As tecnologias, os conhecimentos, as sabedorias dos povos dizimados foram ignorados. O mundo foi então separado entre “privilegiados” e “subjugados”. São mais de 500 anos sendo “donos do mundo”. E nós sempre soubemos que esses europeus eram compostos por portugueses, espanhóis, franceses, alemães, italianos, ou seja, suas particularidades sempre estiveram à vista, sempre foram múltiplas as suas identidades. Mas reduziram africanos e americanos em “negros” e “índios”, tirando as identidades de ambos os grupos e os inserindo em uma só categoria que afirmava “preto quando não caga na entrada, caga na saída” e “é tudo índio, é tudo parente”.

No âmbito das mulheres no Brasil, por exemplo, enquanto em 1827 era criada a primeira escola de “educação feminina” que reforçou ainda mais o estereótipo de “ser feminina” entre mulheres brancas (algo péssimo, lógico), só em 1871 foi promulgada a tal da lei do ventre livre, estabelecendo “liberdade” para filhos de mulheres negras escravizadas nascidos a partir desta data. Em 1888 a tal de lei áurea foi assinada dando fim à escravidão colonial e dando início à escravidão moderna.

Tudo isso é sobre branquitude. Nada disso é sobre negritude ou sobre indígenas. Mas “tudo bem”.

Quem nasceu de pele branca, reconheça ou não, traz no seu corpo as marcas de uma memória, de uma história. Traz consigo a herança de fazer parte do grupo que há mais de 500 anos tem sido beneficiado pelas explorações e dizimações aos outros grupos. Chegamos a uma era de tecnologias, conhecimentos, musicalidades, comunicações, vestimentas, gastronomias dominadas por pessoas brancas em um Brasil com mais de 50% negra e/ou parda que, inclusive, veem suas pessoalidades em negociações capitalistas dominadas por pessoas privilegiadas.

Mas assim como várias vezes ao longo da história desses massacres europeus em terras negras e indígenas os dois povos insurgiram, lutaram, guerrearam, desde a década de 1960 as insurgências negras tem crescido e tomado volume na África, na Europa e na América.

Corta. Pula aí pra 2016.

Agora sim, (um pouco) sobre negritude.

As insurgências negras tem alcançado diversos campos tradicionalmente de dominação branca. As ruas, os partidos políticos, as universidades, a internet, as estantes literatas. Por força dessas insurgências temos visto cada vez mais pessoas negras dispostas a “guerrear” em prol de nossas verdadeiras histórias e nossas verdadeiras memórias. O que buscamos é reparação histórica. Fomos proibidas de estudar, de ler, de falar, de viver. E se não nos insurgimos, os espaços não nos serão dados pela supremacia” branca, isso é história.

E a certeza de que essa supremacia está em voga até hoje, é que pessoas brancas em geral, podem falar e fazerem o quiserem porque historicamente nunca foram impedidas disso. As pessoas brancas sempre tiveram suas identidades tão respeitadas que hoje quando nos referimos as “pessoas brancas”, muitas tomam isso como algo indivualizado, como algo particular. Porque vocês não tiveram que ser racializadas e vistas como “grupos homogêneos”. Quando nós, negras abrimos a boca, insurgindo, sempre aparece uma pessoa branca para dizer que “não podemos falar assim”, que “não podemos” generalizar e colocar todas as pessoas brancas como inimigas, dentro do mesmo “balaio”.

Opa. Mas eu disse que ia falar sobre negritude agora. Mas afinal de contas eu nem sei se já aprendi a falar apenas sobre negritude, visto que a branquitude se sente ferida por buscarmos nossas matrizes. Aí pá, me pego escrevendo para pessoas brancas, ao invés de investir meu tempo apenas em pessoas negras, que são as pessoas que me interessam.

Vou tentar de novo.

Negritude. Cada vez mais a resistência negra está jovializando, digamos assim. As pretas velhas estão conseguindo deixar marcas fortes o suficiente que hoje vemos crianças, adolescentes, adultas … buscando referenciais que lembram a si mesmas tanto em aparência, como em vivência. Já está favorável? Não, ainda não. As pessoas brancas se incomodam e atrapalham nossas insurgências. Conseguem até hoje colocar negras/negros em lados opostos, como se fossemos inimigos de nós mesmos. Isso acontece na concordância e discordância sobre cotas, sobre identidades, sobre que armas devemos usar para guerrear, sobre que espaços podemos/devemos ocupar, sobre o que significa representatividade para a gente.

Ouço pessoas brancas dizendo que são aliadas do movimento negro há anos, como forma de se legitimar anti-racistas, mas não leem uma linhazinha do que escrevemos e ainda se incomodam com nossa insurgência. São pessoas que lutam por uma “humanidade” sem separatismos. Que acreditam que o que nos une é mais forte do que o que nos separa. Desculpem dizer, eu sei que vocês não gostam de ser contrariadas, mas seguir por esse caminho só reforça que vocês não entenderam foi nada.

Quando uma pessoa negra usa a expressão “as pessoas brancas” e isso gera um tumulto entre pessoas brancas, só mostra como o discurso de vocês é raso, sem aprendizado, falacioso, ganacioso e que vocês ainda não conseguiram romper com a histórica supremacia que os ancestrais de vocês impuseram-nos. E vocês tem tanta certeza de que não precisam estudar ou ter vivência para falar sobre x ou y assunto, que não possuem o menor constrangimento para deslegitimar ou desqualificar a fala de uma pessoa negra. E estamos todas nós em processo de aprendizado. Porque 50 anos não são suficientes para sermos totalmente descolonizadas quando passamos mais de 400 anos sem direito de viver. Sem liberdade. Sem nada.

Ah mais vocês se apegam muito ao sofrimento e ao passado”. Dizem as pessoas brancas. Sim, precisamos lembrar cotidianamente que milhares de nossos antepassados foram executados para servir a branquitude. Mas como eu disse, estamos em insurgência. Então hoje sabemos quem foi Sojourner Truth e já sabemos que Cleopatra não tinha a aparência de Elizabeth Taylor. E isso nos ajuda a compreender que precisamos também cada vez mais de professores e estudantes negros insurgindo os currículos escolares e universitários, trazendo à tona debates que são silenciados, mas que nos custam a vida e a autoestima. Nós não somos um tema para o 13 de maio ou para o 20 de novembro, nós somos uma história, nós somos vivência, nós somos insurgência.

Vocês pessoas brancas não precisam negar sua herança escravocrata para parecerem anti-racistas, contra racistas ou nossas aliadas. É justamente reconhecendo que vocês são herdeiras de uma supremacia que poderão contribuir e reaprender que ontem, hoje e amanhã, suas dívidas são seculares. Não começou nem cessará em suas gerações.

Olha só eu de novo falando para as pessoas brancas. Quanta incompetência a minha para falar apenas de negritude. É porque a minha não memória negra é muito forte, eu não sei quem é minha ancestralidade africana, meu avô não sabe direito nem onde a mãe dele morreu, não sabe cadê seus irmãos, se estão vivos ou não. Como saberei falar apenas de negritude se a branquitude apagou nossas memórias?

O lugar de fala e o direito de falar sempre foi garantido às pessoas brancas. Vocês foram socializadas para falar em público, inclusive em vencimento ao sexismo imposto a vocês pela sociedade patriarcal. Mas nós, pessoas negras, nossos corpos não foram socializados para o protagonismo, o espaço público que nos foi dado, foi o da humilhação e subjugação. É compreendendo essa conjuntura que vocês conseguirão ser aliadas de pessoas negras e pessoas indígenas. Não é barganhando voz, não é barganhando protagonismo que vocês parecerão menos brancas ou menos racistas.

ps: Esse texto é mais um fruto de reflexão de conversas com pessoas queridas, negras, indígenas, não negras, brancas. E pra quem quiser aprofundar, vamos às conversas. =)

CHIMAMANDA ADICHIE: O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA

“Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que eu gosto de chamar “o perigo de uma história única.” Eu cresci num campus universitário no leste da Nigéria. Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho que 4 é provavelmente mais próximo da verdade. Então, eu fui uma leitora precoce. E o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos.

Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha pobre mãe era obrigada a ler, eu escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido (Risos). Agora, apesar do fato que eu morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos sobre o tempo porque não era necessário.

Meus personagens também bebiam muita cerveja de gengibre porque as personagens dos livros britânicos que eu lia bebiam cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do que era cerveja de gengibre. E por muitos anos depois, eu desejei desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é uma outra história.

A meu ver, o que isso demonstra é como nós somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história, principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros nos quais as personagens eram estrangeiras, eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura.

Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.

Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são.

Eu venho de uma família nigeriana convencional, de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe, administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos, arranjamos um novo menino para a casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe enviava inhames, arroz e nossas roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: “Termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada?”.

Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide.

Então, um sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um cesto com um padrão lindo, feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles.

Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos. Minha colega de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês como sua língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir o que ela chamou de minha “música tribal” e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey (Risos).

Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão.

O que me impressionou foi que: ela sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade.Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais.

Eu devo dizer que antes de ir para os Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim. Não importava que eu não sabia nada sobre lugares como a Namíbia. Mas eu acabei por abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi meu maravilhoso voo dos Lagos 2 dias atrás, não fosse um anúncio de um voo da Virgin sobre o trabalho de caridade na “Índia, África e outros países.”

Então, após ter passado vários anos nos EUA como uma africana, eu comecei a entender a reação de minha colega para comigo. Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria os africanos do mesmo jeito que eu, quando criança, havia visto a família de Fide.

Eu acho que essa única história da África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação de um mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África em 1561 e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros africanos como “bestas que não tem casas”, ele escreve: “Eles também são pessoas sem cabeças, que têm sua boca e olhos em seus seios.”

Eu rio toda vez que leio isso, e alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias africanas no Ocidente. Uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta, Rudyard Kipling, são “metade demônio, metade criança”.

E então eu comecei a perceber que minha colega de quarto americana deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me disse que meu romance não era “autenticamente africano”. Bem, eu estava completamente disposta a afirmar que havia uma série de coisas erradas com o romance, que ele havia falhado em vários lugares. Mas eu nunca teria imaginado que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana. Na verdade, eu não sabia o que era “autenticidade africana”. O professor me disse que minhas personagens pareciam-se muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas. Por isso elas não eram autenticamente africanos.

Mas eu devo rapidamente acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu visitei o México saindo dos EUA. O clima político nos EUA àquela época era tenso. E havia debates sobre imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinônimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavam espoliando o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa.

Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalajara, vendo as pessoas indo trabalhar, enrolando tortilhas no supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que meu primeiro sentimento foi surpesa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia estado tão imersa na cobertura da mídia sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma.

Então, é assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão.

É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro.” Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do “nkali”. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.

Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com “em segundo lugar”.

Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente.

Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.

Recentemente, eu palestrei em uma universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens nigerianos fossem agressores físicos como a personagem do pai no meu romance. Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado Psicopata Americano e que era uma grande pena que jovens americanos fossem assassinos em série.

É óbvio que eu disse isso num leve ataque de irritação.

Nunca havia me ocorrido pensar que só porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em série, que isso era, de alguma forma, representativo de todos os americanos. E agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas, devido ao poder cultural e econômico da América, eu tinha muitas histórias sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não tinha uma única história sobre a América.

Quando eu soube, alguns anos atrás, que escritores deveriam ter tido infâncias realmente infelizes para ter sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis que meus pais teriam feito comigo (Risos). Mas a verdade é que eu tive uma infância muito feliz, cheia de risos e amor, em uma família muito unida.

Mas também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica adequada. Um dos meus amigos mais próximos, Okoloma, morreu em um acidente aéreo porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizavam a educação, então, por vezes, meus pais não recebiam seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia desaparecer do café-da-manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E, acima de tudo, um tipo de medo político normalizado invadiu nossas vidas.

Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história.

Claro, a África é um continente repleto de catástrofes. Há as enormes, como as terríveis violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que não são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas.

Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.

E se antes de minha viagem ao México, eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família de Fide era pobre e trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para todo o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama “um equilíbrio de histórias.”

E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu trabalho em um banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava. Ele sentiu que pessoas que podiam ler, leriam se a literatura se tornasse acessível e disponível para eles.

Logo após ele publicar meu primeiro romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher que trabalhava lá como mensageira veio a mim e disse: “Eu realmente gostei do seu romance, mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma sequência, e isso é o que vai acontecer…” (Risos). E continuou a me dizer o que escrever na sequência. Agora eu não estava apenas encantada, eu estava comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns de nigerianos, que não se supunham ser leitores. Ela não tinha só lido o livro, mas ela havia se apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência.

Agora, e se minha colega de quarto soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show de TV em Lagos, e que está determinada a contar as histórias que nós preferimos esquecer? E se minha colega de quarto soubesse sobre a cirurgia cardíaca que foi realizada no hospital de Lagos na semana passada? E se minha colega de quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas cantando em inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de Jay-Z a Fela (Kuti), de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse sobre a advogada que recentemente foi ao tribunal na Nigéria para desafiar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores exemplos de que nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os milhões de outros nigerianos que começam negócios e às vezes fracassam, mas continuam a fomentar ambição?

Toda vez que estou em casa, sou confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele. Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo verão. E é extraordinário pra mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por escrever, por contar histórias.

Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura e escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias.

Histórias importam.

Muitas histórias importam.

Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.

A escritora americana Alice Walker escreveu isso sobre seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinham deixado para trás. “Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado.”

Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso.

Obrigada.”

Tradução originalmente publicado em Papo de Homem.