Dos nossos movimentos, sabemos nós.

“seguindo em movimento,
Este não é o momento não é hora de parar.
Organizar, ocupar e resistir!!!”

Hino do Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB)

 

Que nossos movimentos sejam compreendidos como movimentos que trazem bagagens que se encontram e se diferenciam e que nossas lutas não sejam contra nós mesmes, mas contra os genocídios, os feminicídos, o racismo, o sexismo, o capitalismo e toda essa estrutura que sustenta os golpes vividos no Brasil.

Nessa tentativa de retomada desse blog abandonado pelos entraves da escrita, quero tentar contar um pouco de como foram os últimos dias desse julho de 2017. De trás pra frente: escrevo de Florianópolis, em uma forçada pausa do Congresso Fazendo Gênero, onde amanhã apresentarei um trabalho sobre “Ciberfeminismo e superinclusões de gênero: a blogagem feminista e os deslocamentos interseccionais” (a gente segue inventando análise também), era para eu estar focada na organização dos slides, mas to aqui escrevendo sobre minhas próprias emoções. Ontem reencontrei Lari. Depois de um período que ficamos em silêncio, nosso talento para retomadas de trocas, seguem orgânicas: primeiro o afeto, depois a DR. E passamos horas de ontem fofocando e falando de como nossos movimentos são necessários para nossa sobrevivência, a gente que é gente em diáspora, parece que tem dificuldade de parar, estamos sempre ansiosas pelos reencontros, pelas discussões, pelas fofocas … essas naturezas todas. Lari tá incomodada porque acha que as Blogueiras Negras visibilizaram “umas” e não “outras”. Lari, nossos movimentos não são milagrosos, o que uma não deu conta de fazer, outra de nós certamente fará e assim nossas redes são tecidas a partir de nossas próprias lacunas, certo? <3 

Semana passada, mais precisamente dia 27 de julho, quinta-feira, foi dia de choro liberto. Vilma Reis, querida, ande mais pelas encruzilhadas desse país e leve os recados para todos os cantos, jogue esses livros todos nas nossas caras, espalhe a palavra do motim negro em todos os quilombos, em todas as cidades, em todos os vilarejos. Não há um só corpo negro cuja consciência não ressuscite depois de ouvir seu chamado. Sem medo dos melindres, mas eu aposto que em vida, certamente a senhora é uma de nossas maiores malassombradas, o que a senhora fez naquela plenária do Latinidades não tem outro nome que não um levante negro. Chega de golpes, não somos negras  mansas! Vilma foi a força que afrontou o Latinidades. Não há um dia de descanso, não há dia que não haja golpe, não há tempo a perder, não teremos “Lula lá” com Rafael Braga condenando, com quilombolas perdendo seus direitos às suas terras, com as populações negras e indígenas sendo dizimadas há mais de 500 anos. Não há tempo para acordos duvidosos. Charô chorou. Gabi chorou. Carol chorou. Angel chorou. Eu to chorando até agora quando penso em cada uma. Quanto mais me distancio de vocês, mas posso ver que minha solidão só tem cura se for caminhando com vocês. E isso não se reduz aos nomes citados acima. A força disso é muito maior!

O que precisamos curar juntas é a dificuldade de ouvirmos as críticas que fazemos umas às outras sem que isso vire mais guerra desnecessária. Eu to realmente cansada de guerrear entre a gente. Mas vejam só, quando mulheres negras das Amazônias puxamos as orelhas de vocês por nos invisibilizarem, prestem atenção nisso, não se afetem, não se justifiquem, não gaguejem, não refutem, a gente já tem o povo branco fazendo isso. Nós não podemos ser a cota entre nós mesmas, conheçam nossas histórias, nossos movimentos, nos ouçam, fortaleçam seus movimentos caminhando junto com a gente. Os eventos feministas negros ainda falham nessa reflexão, nesses olhares, nessa guinada. Eu, que hoje moro em Salvador, costumo dizer que aprendi a enxergar o mundo a partir do meu território e só assim consigo me mover aprendendo sobre todas que seguem segurando e passando o bastão. Em nossos processos de decolonialidades, é necessário não olhar para as Amazônias com olhos de precarização. Não nos precarizem. O Estado já faz isso, o agronegócio faz isso, o desmatamento faz isso, as mineradoras fazem isso. Nossos movimentos de resistência são seculares também e ter UMA de nós nos espaços feministas negros, não representa as nossas vozes. Assim como ter UMA pessoa negra em espaços feministas brancos, não representa quem somos. Isso é colonização também. Não esperemos milagres entre nós, mas o apagamento amazônico tem sido regra.  Tomo a liberdade de reescrever uma frase de Erica Malunguinho: a Amazônia não é recorte, aqui também somos fundamento. Sobre isso, aproveito para convidá-las a ler esse manifesto feito pela Rede Fulanas na ocasião da Marcha das Mulheres Negras 2015: Manifesto das Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira para a Marcha das Mulheres Negras 2015.

Bem, mas o que mais me motivou a escrever esse texto hoje – que já se dispersou totalmente – foi o lançamento do Catálogo Intelectuais Negras Visíveis, dia 29 de julho, no Rio de Janeiro, na décima quinta edição da Festa Literária Internacional de Paraty.  Considero esse projeto como um dos mais inovadores entre todos os nossos projetos. E ouvi de Giovana a mesma preocupação de Larissa: não demos conta de todas. Nem daremos. Nenhum projeto nosso dará conta de todas nós, cobrar-nos isso é ceder a esse colonialismo que nos impõe homogeneidade. Se nem a Marcha das Mulheres Negras deu conta de todas mesmo após reunir 50 mil mulheres negras em Brasília – e a Marcha é um marco, uma divisora de águas em nossos movimentos.

Eu baixei o Catálogo Intelectuais Negras Visíveis hoje. Agorinha. Falta muita gente? Lógico! Adoraria ter visto mais mulheres da Amazônia, porque nós também temos uma história a ser respeitada e visibilizada? Absolutamente, sim! Mas tem mais uma frase da Larissa que eu quero citar: “ESSE É UM TRABALHO QUE NEM TODO MUNDO FAZ!”. Portanto, valorizemos e respeitemos. Fiquei envaidecida de confirmar meu nome nele, lógico que fiquei, quero ser visível, afinal. Queremos todas. Mas o catálogo não é sobre mim, Winnie Bueno ou sobre Luciane Reis, é sobre diminuir o abismo entre a pretensa história única e as histórias que somos e temos para contar, então mais do que minha satisfação, o que é fundamental na construção de um registro desse é a rede a ser fortalecida a partir desse (re)encontro e do compromisso assumido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras UFRJ: “formular políticas que contribuam para conferir visibilidade aos saberes de Mulheres Negras, intelectuais nos seus múltiplos fazeres”. É um compromisso público, transparente, não secreto. Eu mesma não tinha noção da dimensão do trabalho quando fui procurada (e nem sei como chegaram ao meu nome), só compreendi do que estavam falando quando vi o texto de Giovana publicado nas Blogueiras Negras, só ali caiu a ficha. Agora, com a primeira edição lançada, que tal um evento “Intelectuais Negras Visíveis”? Eu aposto, eu vou.

O catálogo traz onze “categorias” de atuações: Academia e Pesquisa, Afroempreendedorismo, Artes (Cinema, Dança, Música, Teatro e TV Artes Visuais), Coletivo de Mulheres Negras, Comunicação e Mídias, Direitos Humanos, Intelectuais Públicas, Literatura, Professoras da Educação Básica, Saúde. E a partir de um método interseccional, foram consideradas a diversidade etária, regional, de classe, de gêneros e sexualidades. É um primeiro balanço e como lembra Giovana: a lista é infinita. Muitas dessas intelectuais eu tenho a honra de conhecer e ter vivências coletivas com elas, como Nilma Bentes, Zélia Amador de Deus e Caroline Quaresma (Ananindeusa Afro-Ameríndia) – que também são de Belém. Da culpa de não conhecer nossas histórias, eu não morro. Já chega de culpas, já chega dessa matriz se perpetuando, nos reinventemos, maravilhosas!

Acredito na possibilidade dessa cura. Nossos grupos podem ser fortalecidos no diálogo, no debate, na briga, mas não na disputa entre si. Como acredito que podemos promover esse fortalecimento, eu me ofereço para auxiliar eventos e projetos feministas e negros, a aprimorar nossa curadoria e fortalecer as escritas de nossas histórias. A propósito, aproveito para nos dizer que possamos aprender a respeitar nossas autorias e aprender a citar nossas inspirações intelectuais, marcar esses nomes, negritar essas existências, pois “o que a diáspora separa, a ancestralidade une”, reflexão que aprendi com a Yalorixá Mãe Nalva de Oxum, sacerdotisa do Ilê Yabá Omi, situado no Bairro da Terra Firme, em Belém. Essa frase eu repito desde outubro de 2013, por onde eu caminho, levo ela comigo.

Por fim, fim. Parece que consegui dessa vez. Terminei um texto depois de longos 8 meses brigando com o branco do papel, finalmente o preenchi de letras negras.

“eu não posso me dar o luxo de lutar apenas uma forma de opressão somente”

O título desse post está entre aspas porque é um trecho do texto “Não há Hierarquias de Opressão”, de Audre Lorde. Audre comentava sobre a impossibilidade de ela existir em partes: “Como uma Negra, lésbica, feminista, socialista, poeta, mãe de duas crianças incluindo um garoto e membra de um casal interacial”, dizia se sentir o tempo todo como “parte de algum grupo no qual a majoritariedade define como desviante”, por compreender-se como mulher indivisível, Audre também acreditava que o combate às opressões era indivisível.

“E eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles aparecerem pra destruir você.”

(Audre Lorde)

Bom, são tempos difíceis para se fazer escolhas sobre que “pautas” são importantes para combater. Eu denuncio o racismo da polícia militar no Brasil, da mesma forma que denuncio o machismo da dita corporação. Não é possível combater uma opressão por vez. Uma viatura segue uma jovem negra na rua. Qual a intenção dos ocupantes da viatura? Pegá-la por ser preta e suspeita ou por ser mulher e ser alvo fácil de assédio sexual? Eu como testemunha da cena vou denunciar qual crime da PM primeiro? E se ao mesmo tempo uma mulher branca desvia dessa jovem negra na rua porque sua aparência, seus cabelos em dreads, levantam suspeita? Eu devo ignorar a atitude racista da moça branca porque agora preciso focar em uma só pauta e denunciar apenas a PM? E se a jovem for assaltada e o assaltante ameaça-la de estupro? Devo então me calar porque a denuncia do momento ainda é a PM e eu não posso desvirtuar o foco?

d9404a4d-9446-401d-a4b6-2c571f770f35

A cena com a jovem negra é fictícia, mas ao mesmo é real. O racismo e o machismo cravam os corpos das mulheres negras simultaneamente.

Como será que uma mulher negra e lésbica como Audre Lorde, deveria se comportar se de um lado a chamassem de “negra fedida” e do outro de “mulher macho”? Ela deveria escolher qual crime denunciar primeiro? Ou ela seria culpada de acionar ambas discriminações na sociedade?

E a mulher negra, mãe, periférica, que precisa deixar a cria na creche sob os cuidados de monitoras que reproduzem o racismo e o sexismo? Como essa mulher vai escolher que pauta ela vai lidar primeiro na creche? As monitoras cultivam a Barbie como modelo de boneca, ensinam as crianças que rosa e azul tem ligação com gênero e o que o capitalismo é modelo de felicidade. E agora? Qual pauta resolver primeiro? Quem conseguirá estabelecer prioridades de combate e reivindicação?

Eu, enquanto mulher negra, heterossexual, solteira, sem filhos, ao ouvir que mulher branca é pra construir família e mulher negra é pra “curtir um sexo gostoso” (sic), serei capaz de escolher se primeiro denuncio o racismo ou se primeiro denuncio o machismo? Como é possível que eu divida meu corpo, minha existência em categorias e em momentos diferentes eu seja uma ou outra coisa? Como serei negra em dado momento e mulher em outro momento? E quem decide qual opressão deve vir à frente?

A mesma intolerância que uma sociedade eurocentrada como a sociedade brasileira tem com o corpo negro, muitos homens negros tem com as mulheres negras. Mas quando eu denuncio ambas as discriminações, sou acusada por outras mulheres de “desvirtuar o foco” do combate, porque preciso hierarquizar opressões. Uma hora eu combato o genocídio da população negra e nessa hora sou útil, mas deixo de ser útil quando não estou autorizada a combater o genocídio e o machismo ao mesmo tempo, já que alguém determinou que eu devo combater apenas uma discriminação e que eu devo unir forças com aquele que me agride e que agride outras mulheres negras, perseguindo, desrespeitando, gritando, aterrorizando.

Lélia Gonzalez, intelectual negra de Minas Gerais, também faz chama a uma reflexão semelhante no texto “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”. Logo depois da epígrafe, ela comenta que “O lugar que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular”. Então enquanto o homem negro tem certa imagem construída pelo racismo, sendo essa imagem a de baderneiro, bandido e boêmio, a imagem construída sobre a  mulher negra, pelo racismo e pelo sexismo, é de que somos barraqueiras, extremamente fortes e prontas para alimentar os homens (de sexo e de leite).

Então imaginem os efeitos nefastos em nós quando homens negros presenciam mulheres negras sendo agredidas pela polícia militar e não dizem nada, não fazem nada e seguem seus batuques, como escolher que opressão eu devo combater primeiro nesse cenário? Se a polícia militar carrega uma mulher negra no camburão da viatura, e nenhum homem negro presente enfrenta essa polícia em defesa dessa juventude, que combate ao genocídio negro estão fazendo esses homens? E eu devo denunciar apenas o racismo e o machismo da pm, mas ignorar o machismo dos homens negros que são coniventes com a violência policial? Mulheres negras estão ao lado desses homens no combate, mas o contrário também não é possível? Ou o melhor que podem fazer é nos continuar “mandando se fuder quando quiser”, como muito bem reiterou um deles em meu perfil no Facebook?

O GENOCÍDIO NEGRO NÃO É SIMBÓLICO!

Carol "Resistência" Pabiq. Foto: Thiane Neves Barros.
Carol “Resistência” Pabiq. Foto: Thiane Neves Barros.

 

Ontem, 13 de março de 2016, enquanto centenas de pessoas de classe média e majoritariamente brancas, manifestavam em Belém, sob a proteção da Polícia Militar do Pará, criança negra era arrastada de sua mãe em via pública, a luz do dia e sob os olhares coniventes dessa gente que manifestava ~ por um brasil melhor.

Enquanto isso, mais uma mulher negra, pobre, aliás, pobre não, na linha da miséria mesmo, era violentamente agredida pela Polícia Militar do Pará a pedido do pai das crianças. Ele aos 50 anos, homem robusto e com a vida financeira estável. Ela, negra, com 33 anos, artesã e dona de um corpo tão miúdo que eu mesma demorei a crer que ela seja apenas cinco anos mais nova do que eu. Ele nunca pagou pensão para as crianças, mas quem foi julgada como criminosa foi ela que, agarrada em suas crianças, clamava que não as levassem. Acusação: o pai já havia avisado que, caso a mãe estivesse com as crianças trabalhando na praça (vendendo artesanato), ele chamaria a polícia pra tirar as crianças dela.

Foi o que ocorreu. Domingo de manhã, a praça da república cheia de outras crianças com familiares, inclusive mães que trabalham durante a semana e tem a oportunidade de passear com suas crias aos domingos, essa moça (cuja identidade manterei sob sigilo) que consegue vender melhor aos domingos, trabalhava (e sim, com as crianças, já que ninguém pode ficar com as crianças, nem o pai denunciante) justamente pra garantir alguma possibilidade de sustento às crianças durante as semana.

Por sorte, dessa vez ela não estava sozinha.

Acontecia no Bar do Parque uma batucada e nela estavam algumas jovens negras que acudiram a jovem mãe agredida pela PM. Foi quando, em demonstração máxima de poder, controle, racismo e machismo, os policiais dispararam agressões físicas e morais às garotas. Socos no rosto, corpos arrastados, empurrões, armas em riste, xingamentos, arranhões. TODAS MULHERES. Jovens, Negras. Pobres. TODAS.

Foi quando uma delas, ao abraçar as crianças e a mãe, foi acusada de impedir o trabalho da polícia e acusada de ser uma ameaça aos policiais. Um corpo magro e armado apenas de resistência. E então foi arrastada pra dentro do camburão e levada à delegacia já com o veredito final dado pelos policiais: culpada!

Daí em diante o show de ódio foi acompanhado de um deplorável desconhecimento da lei, soberba e a certeza da impunidade e proteção do estado ao oficio de arrastar corpos negros pelas ruas. Vanessa foi torturada emocionalmente durante as cerca de 5 horas que ficou em custódia da polícia. Queriam levá-la a todo custo para o presídio. Sabem porque não levaram? Não conseguiram enquadrar Vanessa em nenhum tipo de crime. Apesar de todos os esforços pela manutenção da eugenia.

Só que dessa vez a rede estava também em riste. Mulheres negras em rede e nossos aliados (em sua maioria os homens negros gays e bissexuais) a postos, igualmente. Mexemos uma estrutura inteira nessa rede e com a parceria incansável de advogadas e advogados, Vanessa foi liberada ontem mesmo.

Não conseguimos impedir que as crianças fossem levadas da mãe. E essa mulher lutou bravamente, como lutam as mulheres negras. Daquele corpo miúdo saiu tanta raiva acumulada, tanta vontade de resistência, tanta capacidade de luta e ao mesmo tempo tanto amor por aquelas crianças, um grito tão alto de pedido de ajuda que arrisco dizer que aquele corpo nunca mais vai silenciar. E lutaremos até saber que ela e suas crianças estarão a salvo e com alguma saúde.

Quando vem os flashes da mãozinha da filha dela grudada no vidro da janela da viatura, é impossível não chorar tudo de novo. ERAM APENAS CRIANÇAS! E mais uma mulher culpada. ,

A infância negra pede socorro!
A juventude negra pede socorro!
Mulheres negras pedem socorro!

E se a militância negra não estiver atenta, nós continuaremos perdendo nossa juventude. Seja física ou emocionalmente. Não podemos nos dar ao “luxo” de abrir mão de nossas crianças, de nossa juventude! Homens negros, esta pauta é sua também! Mulheres negras morrem em combate aos seus lados desde sempre. Se nem essa pauta for capaz de nos unir enquanto movimento, o Estado brasileiro continuará bem sucedido em sua eugenia. Só unidas e unidos poderemos mostrar a esse Estado que ele vai se arrepender de levantar a mão pra gente!

(se por ventura esqueci de marcar alguém que estava lá, me perdoem antecipadamente, a cabeça ainda não voltou pro lugar)

Laroyê Exu!

‪#‎MulheresNegrasemRede‬ ‪#‎JuventudeNegraViva‬ ‪#‎Infâncianegraviva‬

Esse texto foi originalmente publicado em meu perfil no Facebook e mantive inclusive os erros ortográficos e de digitação, reflexos do momento.

Sobre lugar de fala, direito de fala, socialização para falar. Conjuntura.

Imagem de Gabriel Jardim do blog  Ofensiva Negritude
Imagem de Gabriel Jardim do blog Ofensiva Negritude

Os maiores genocídios da história da “humanidade” são os genocídios dos povos africanos e dos povos das américas, sim? Já duram mais de 5 séculos. Os primeiros foram dizimados em suas próprias terras e aqui “nas terras alheias”, os segundos foram dizimados dentro de suas casas. Em nenhum dos casos puderam pedir abrigo em outros países como forma de fugir do genocídio. Diferente dos povos europeus que desde a colonização europeia nos dois continentes, encontram abrigo ambos.

Esses genocídios acontecem/aconteceram em benefício da supremacia dos povos brancos. O racismo contra as populações indígenas e negras existe porque os povos brancos europeus se julgavam acima de qualquer outra civilização. Dizimaram famílias, culturas, identidades, deslocaram territorialidades, porque os corpos indígenas e negros lhes pertenciam, segundo seu julgamento. Os colonizadores europeus reduziram o mundo às suas verdades, aos seus conceitos, às suas categorias. As tecnologias, os conhecimentos, as sabedorias dos povos dizimados foram ignorados. O mundo foi então separado entre “privilegiados” e “subjugados”. São mais de 500 anos sendo “donos do mundo”. E nós sempre soubemos que esses europeus eram compostos por portugueses, espanhóis, franceses, alemães, italianos, ou seja, suas particularidades sempre estiveram à vista, sempre foram múltiplas as suas identidades. Mas reduziram africanos e americanos em “negros” e “índios”, tirando as identidades de ambos os grupos e os inserindo em uma só categoria que afirmava “preto quando não caga na entrada, caga na saída” e “é tudo índio, é tudo parente”.

No âmbito das mulheres no Brasil, por exemplo, enquanto em 1827 era criada a primeira escola de “educação feminina” que reforçou ainda mais o estereótipo de “ser feminina” entre mulheres brancas (algo péssimo, lógico), só em 1871 foi promulgada a tal da lei do ventre livre, estabelecendo “liberdade” para filhos de mulheres negras escravizadas nascidos a partir desta data. Em 1888 a tal de lei áurea foi assinada dando fim à escravidão colonial e dando início à escravidão moderna.

Tudo isso é sobre branquitude. Nada disso é sobre negritude ou sobre indígenas. Mas “tudo bem”.

Quem nasceu de pele branca, reconheça ou não, traz no seu corpo as marcas de uma memória, de uma história. Traz consigo a herança de fazer parte do grupo que há mais de 500 anos tem sido beneficiado pelas explorações e dizimações aos outros grupos. Chegamos a uma era de tecnologias, conhecimentos, musicalidades, comunicações, vestimentas, gastronomias dominadas por pessoas brancas em um Brasil com mais de 50% negra e/ou parda que, inclusive, veem suas pessoalidades em negociações capitalistas dominadas por pessoas privilegiadas.

Mas assim como várias vezes ao longo da história desses massacres europeus em terras negras e indígenas os dois povos insurgiram, lutaram, guerrearam, desde a década de 1960 as insurgências negras tem crescido e tomado volume na África, na Europa e na América.

Corta. Pula aí pra 2016.

Agora sim, (um pouco) sobre negritude.

As insurgências negras tem alcançado diversos campos tradicionalmente de dominação branca. As ruas, os partidos políticos, as universidades, a internet, as estantes literatas. Por força dessas insurgências temos visto cada vez mais pessoas negras dispostas a “guerrear” em prol de nossas verdadeiras histórias e nossas verdadeiras memórias. O que buscamos é reparação histórica. Fomos proibidas de estudar, de ler, de falar, de viver. E se não nos insurgimos, os espaços não nos serão dados pela supremacia” branca, isso é história.

E a certeza de que essa supremacia está em voga até hoje, é que pessoas brancas em geral, podem falar e fazerem o quiserem porque historicamente nunca foram impedidas disso. As pessoas brancas sempre tiveram suas identidades tão respeitadas que hoje quando nos referimos as “pessoas brancas”, muitas tomam isso como algo indivualizado, como algo particular. Porque vocês não tiveram que ser racializadas e vistas como “grupos homogêneos”. Quando nós, negras abrimos a boca, insurgindo, sempre aparece uma pessoa branca para dizer que “não podemos falar assim”, que “não podemos” generalizar e colocar todas as pessoas brancas como inimigas, dentro do mesmo “balaio”.

Opa. Mas eu disse que ia falar sobre negritude agora. Mas afinal de contas eu nem sei se já aprendi a falar apenas sobre negritude, visto que a branquitude se sente ferida por buscarmos nossas matrizes. Aí pá, me pego escrevendo para pessoas brancas, ao invés de investir meu tempo apenas em pessoas negras, que são as pessoas que me interessam.

Vou tentar de novo.

Negritude. Cada vez mais a resistência negra está jovializando, digamos assim. As pretas velhas estão conseguindo deixar marcas fortes o suficiente que hoje vemos crianças, adolescentes, adultas … buscando referenciais que lembram a si mesmas tanto em aparência, como em vivência. Já está favorável? Não, ainda não. As pessoas brancas se incomodam e atrapalham nossas insurgências. Conseguem até hoje colocar negras/negros em lados opostos, como se fossemos inimigos de nós mesmos. Isso acontece na concordância e discordância sobre cotas, sobre identidades, sobre que armas devemos usar para guerrear, sobre que espaços podemos/devemos ocupar, sobre o que significa representatividade para a gente.

Ouço pessoas brancas dizendo que são aliadas do movimento negro há anos, como forma de se legitimar anti-racistas, mas não leem uma linhazinha do que escrevemos e ainda se incomodam com nossa insurgência. São pessoas que lutam por uma “humanidade” sem separatismos. Que acreditam que o que nos une é mais forte do que o que nos separa. Desculpem dizer, eu sei que vocês não gostam de ser contrariadas, mas seguir por esse caminho só reforça que vocês não entenderam foi nada.

Quando uma pessoa negra usa a expressão “as pessoas brancas” e isso gera um tumulto entre pessoas brancas, só mostra como o discurso de vocês é raso, sem aprendizado, falacioso, ganacioso e que vocês ainda não conseguiram romper com a histórica supremacia que os ancestrais de vocês impuseram-nos. E vocês tem tanta certeza de que não precisam estudar ou ter vivência para falar sobre x ou y assunto, que não possuem o menor constrangimento para deslegitimar ou desqualificar a fala de uma pessoa negra. E estamos todas nós em processo de aprendizado. Porque 50 anos não são suficientes para sermos totalmente descolonizadas quando passamos mais de 400 anos sem direito de viver. Sem liberdade. Sem nada.

Ah mais vocês se apegam muito ao sofrimento e ao passado”. Dizem as pessoas brancas. Sim, precisamos lembrar cotidianamente que milhares de nossos antepassados foram executados para servir a branquitude. Mas como eu disse, estamos em insurgência. Então hoje sabemos quem foi Sojourner Truth e já sabemos que Cleopatra não tinha a aparência de Elizabeth Taylor. E isso nos ajuda a compreender que precisamos também cada vez mais de professores e estudantes negros insurgindo os currículos escolares e universitários, trazendo à tona debates que são silenciados, mas que nos custam a vida e a autoestima. Nós não somos um tema para o 13 de maio ou para o 20 de novembro, nós somos uma história, nós somos vivência, nós somos insurgência.

Vocês pessoas brancas não precisam negar sua herança escravocrata para parecerem anti-racistas, contra racistas ou nossas aliadas. É justamente reconhecendo que vocês são herdeiras de uma supremacia que poderão contribuir e reaprender que ontem, hoje e amanhã, suas dívidas são seculares. Não começou nem cessará em suas gerações.

Olha só eu de novo falando para as pessoas brancas. Quanta incompetência a minha para falar apenas de negritude. É porque a minha não memória negra é muito forte, eu não sei quem é minha ancestralidade africana, meu avô não sabe direito nem onde a mãe dele morreu, não sabe cadê seus irmãos, se estão vivos ou não. Como saberei falar apenas de negritude se a branquitude apagou nossas memórias?

O lugar de fala e o direito de falar sempre foi garantido às pessoas brancas. Vocês foram socializadas para falar em público, inclusive em vencimento ao sexismo imposto a vocês pela sociedade patriarcal. Mas nós, pessoas negras, nossos corpos não foram socializados para o protagonismo, o espaço público que nos foi dado, foi o da humilhação e subjugação. É compreendendo essa conjuntura que vocês conseguirão ser aliadas de pessoas negras e pessoas indígenas. Não é barganhando voz, não é barganhando protagonismo que vocês parecerão menos brancas ou menos racistas.

ps: Esse texto é mais um fruto de reflexão de conversas com pessoas queridas, negras, indígenas, não negras, brancas. E pra quem quiser aprofundar, vamos às conversas. =)